31 outubro 2009

SAUDADE

(por:  F. Santa)

Saudade. Palavra que segundo dizem, foi inventada por nós portugueses e só nós a sabemos interpretar. Saudade, pela parte que me toca é o que sinto quando me vem à memória as nossas aventuras por terras de Moçambique com todos aqueles que compartilharam connosco. Ontem fez anos que os nossos camaradas PENICHE E CORADO ficaram para traz. Uma guerra sem sentido deu-lhes como prémio uma morte cruel e sem piedade levando-os do nosso seio não podendo hoje compartilhar os nossos convívios nem este cantinho onde nós depositamos todas as nossas lembranças. Estamos a entrar em Novembro, mês em que se celebra o dia de todos os santos (fiéis defuntos) eu não queria deixar esquecer todos aqueles camaradas nossos que pareceram dando a vida pela Pátria. Respeitando a crença de cada um eu quero aqui deixar bem expresso a minha saudade por eles e que Deus os tenha em bom lugar. Todos eles foram nossos companheiros, todos eles estiveram nos bons e maus momentos por que passámos, e todos nós fomos impotentes para os manter ao nosso lado, às famílias a nossa eterna saudade.
Eu sei que para alguns isto pode ser pieguice, também sei que para alguns isto não diz nada, mas para mim diz-me muito pois ainda hoje continuo a estar em contacto com a realidade e a realidade ainda hoje incomoda muita gente. Ainda no princípio deste mês um camarada nosso pôs termo à vida .Era aqui próximo de Coimbra. Sabem porquê? Viveu com stress de guerra desde que regressou do Ultramar, só há cinco anos é que foi a uma junta médica dando-lhe uma determinada incapacidade só que passaram cinco anos e não viu um tostão, tendo dificuldades na vida foi a solução que ele arranjou. Agora sei que já estão a dizer que o Santa é um revoltado. Pois neste aspecto sou. Passámos todos as “passas do Algarve” e fomos esquecidos e atirados para o lixo considerados já, impróprios para consumo.
Desculpem, mas este foi mais um desabafo meu. Não podemos esconder a realidade por mais cruel que ela seja e como já disse atrás, faz-nos bem desabafar. Para todos aqueles que pareceram que as suas almas estejam em paz.
Mudando de assunto: Continuamos a ser só meia dúzia que integram (eu chamo-lhe) o nosso cantinho, onde estão os outros? Moreira, Braga, Magalhães, Miranda, Madureira, o J.M. Vieira Rodrigues e outros. Será que não têm tempo? Não acredito! Faço um apelo para que colaborem e passem a mensagem a outros, este nosso espaço não pode morrer. Estive na passada quarta-feira ao telefone com o Vilas Boas, está muito desanimado com os problemas de saúde que tem e quase de certeza que alguns deles são “prendas” dadas pela guerra. Esteve a dizer que praticamente não sai de casa e sendo assim caminha para a solidão. Não vamos deixar, vamos contactar com ele de vez em quando e dar-lhe apoio, deixo aqui o contacto dele: 217601557. É assim que se vê a força da C Cav. 2415: saudade, amizade e solidariedade sempre!
Por hoje acho que já  chega, vamos todos para a água-pé e para as castanhas assadas e sorrir e tentar-mos ser felizes até ao fim das nossas vidas que a vida não está fácil.
                                              
                                Um abraço do tamanho do mundo para todos vocês
                                 deste vosso camarada: SANTA             




29 outubro 2009

30 - 10 - 1969 - Homenagem

 Aos nossos companheiros


JOAQUIM FRANCISCO RODRIGUES DA SILVA
(de Fonte Boa, Ajuda, Peniche)

e

AVELINO AUGUSTO CORADO
(de Paço, S.Bartolomeu dos Galegos, Lourinhã) 

no 40º. aniversário do seu falecimento em combate.


" Quando NT picavam a picada até Luatize e a cerca de 25 km de Valadim, rebentou uma mina na última viatura, um Unimog a gasolina, onde morreram os soldados Peniche e Corado e ainda um enfermeiro da CCS do Batalhão. Nessa mina ficaram bastante feridos mais 4 camaradas, entre eles o meu amigo Moreira, radiotelegrafista, que ficou todo queimado." ( Citando as palavras do camarada A. Castro, publicadas neste Blog em 13/5/09)



Bem-vindo , Vivaldo !!!!

O caríssimo   companheiro Nuno VIVALDO oferece-nos estas fotos da nossa actividade operacional.
Todos nos lembramos que, além dos serviços da sua especialidade (as injecções e os célebres comprimidos LM ), dava apoio na secretaria da companhia. Recordo-me da sua memória prodigiosa: sabia de cor os números mecanográficos de TODOS nós. Isto não é exagero: sabia mesmo o número (composto por oito algarismos) de cada um ! E devíamos ser à volta de centena e meia ! (Não sei se esta capacidade lhe foi útil na sua carreira no INE - Instituto Nacional de Estatística...)



Cabe aqui uma nota de louvor pelo seu empenho (com outros companheiros, nomeadamente o Comandante e o Baptista, que são os que me ocorrem de momento) na realização do nosso primeiro encontro, no David da Buraca!

23 outubro 2009

Ainda o "Suplemento Especial de Pensão"

(Por  F. Santa)
Amigo e Camarada Castro
Li o teu artigo sobre a choruda quantia que recebeste  dada pelo teu (amigo) Paulo Portas. Como vês já passas a ter uma vida melhor com tanto dinheiro. É  realmente uma vergonha.
  Nós não precisamos de esmola, precisamos sim é de um fim de vida condigno e não desprezados por aqueles que tinham obrigação de nos honrar como filhos de uma Pátria, Pátria que defendemos com a nossa vida e com o nosso sangue. Falaste e bem nos Def. das Forças Armadas. A maior parte deles vivem na miséria com autenticas esmolas dadas por mês, viúvas cuja pensão não dá para viver e grandes deficientes cuja saúde se agravou não conseguem aumento da sua pensão. Camaradas nossos que não sendo deficientes batem-se com o Stress de Guerra, ainda hoje alguns levantam-se de noite e andam aos tiros pela casa, gritam por camaradas que viram morrer sendo as suas mulheres o seu suporte, outros que pela água que se bebia e por aquela que se enxugava no corpo, pela comida e outras coisas mais hoje sofrem no corpo os males causados por uma guerra para à qual fomos sem ter culpa. Somos dos poucos países (se calhar o único) que os seus governantes não souberam honrar os seus combatentes. Ainda ontem
assisti a um programa de televisão onde esteve presente uma irmã de um camarada nosso que esteve na Guiné, morreu lá em combate e por lá ficou enterrado. A sua família chorou estes anos todos sem ter um corpo para velar, foi preciso a irmã tratar de tudo para descobrir o sítio onde ele estava enterrado, com ajuda da Liga dos Combatentes da Grande Guerra. Este veio. E os outros quatro mil?
 É assim amigo Castro. O dinheiro faz falta para o TGV e para o Aeroporto e dar aos senhores dos bancos e aos nossos governantes reformas milionárias aos combatentes da guerra do Ultramar umas quaisquer migalhas chegam pois já estamos na idade de ir desaparecendo do mapa! Não somos trapos velhos, somos homens que quando jovens deixámos para traz família, mulher, noiva, amigos e alguns o emprego e ir obrigados para uma guerra que não era nossa.
Isto que escrevo aqui, é mais um grito de revolta que ecoa pelas linhas que atrás escrevi e que poderia ser muito bem proferido por milhares de deficientes, milhares de viúvas, milhares de órfãos e muitas famílias de muitos outros, os desaparecidos. Reavivar na memória das pessoas os horrores da guerra não é mais que prestar homenagem a todos aqueles que combateram, aos deficientes e aos mortos que pagaram com o seu sangue o preço de uma guerra causada pelo poder do fascismo.
Por hoje, este meu desabafo já me deixou um pouco mais aliviado pois hoje sou um dos revoltados com tudo o que se passou e continua a passar, mas no fundo é bom estes desabafos!
   
          Castro: espero que o galo já não esteja muito rijo! Um grande abraço para todos os camaradas da 2415.
                                              SANTA

18 outubro 2009

AQUARTELAMENTOS DE MOÇAMBIQUE, de Pedro Dias




PALAVRAS PRÉVIAS


Quanto às razões que nos motivaram a escrever sobre a Guerra do Ultramar em Moçambique, já tudo foi dito em obras anteriormente editadas, pelo que não queremos repetir-nos para não cansar os nossos leitores, uma vez que têm uma “árdua tarefa” pela frente, que é percorrer os cerca de 225 300 quilómetros qua-drados, tantos quantos dizem respeito aos Distritos do Niassa e Zambézia, base deste nosso trabalho.
Contudo, seria imperdoável da nossa parte, não prestar alguns esclareci-mentos que a serem omitidos, levariam, porventura, a quem nos lê, a interrogar-se. Porquê de novo os Aquartelamentos do Niassa, se estes já foram abordados em 2002?
A razão principal, deve-se às solicitações de militares que prestaram a sua comissão no Niassa e que nos motivaram a escrever sobre o mesmo tema.
Quando nos debruçámos sobre os Aquartelamentos do Niassa que foram publicados em Número Especial da Revista Batalhão, da qual fomos responsáveis durante 15 anos, fizemo-lo em moldes diferentes daqueles que, posteriormente, utilizámos em relação a Cabo Delgado e Tete.
Assim, estimulados pelas palavras de incentivo recebidas, passámos, de imediato, do projecto à acção.
Deste modo, aproveitámos a oportunidade para agregar, neste livro, o Dis-trito da Zambézia, por sabermos que muitas Unidades, que cumpriram a sua mis-são em zonas de 100% de intervenção, eram transferidas para este Distrito com a incumbência de efectuar patrulhamentos.
Posto isto, iremos tecer umas breves considerações quanto ao conteúdo des-te trabalho, nomeadamente à forma como foi estruturado. Os dois primeiros capí-tulos são destinados aos Distritos do Niassa e Zambézia inserindo os aquartela-mentos, em cada um deles, por ordem alfabética de A a Z. Refira-se, que apenas constam os locais por onde passaram Unidades a nível de Batalhão ou Companhia e nunca aqueles que serviram de Destacamento, excepção feita a Miandica, cujas razões se encontram explícitas na própria página. Quanto às imagens, muitas de-las chegaram-nos em condições muito “envelhecidas”. Apesar disso, resolvemos não as excluir, por encerrarem dentro de si muita história que interessa dar a co-nhecer. Reproduzimos, também, por comparação e sempre que possível, imagens captadas recentemente nas “peregrinações” que muitos combatentes têm efectua-do aos locais por onde andaram há décadas.
Abordámos, ainda, no capítulo terceiro, a maior tragédia ocorrida durante a guerra do Ultramar, o desastre no rio Zambeze, uma vez que ele esteve também ligado ao Distrito da Zambézia.
Antes de finalizar queremos deixar uma palavra de gratidão a todos, sem exclusão alguma, com quem contactámos no sentido de obter fotos ou outros ele-mentos, quer escritos ou verbais, para a elaboração deste livro.
Fica também expresso, por antecipação, os agradecimentos a todos aqueles que nos irão contactar, depois de lerem o livro, dizendo-nos que tinham “imagens magníficas” deste ou daquele lugar…
O Autor


Sumário

Palavras Prévias 6

Instalações 7

PRIMEIRO CAPÍTULO - DISTRITO DO NIASSA
Mapa 13
América 14
Bandece 16
Belém 18
Candulo 20
Cantina Dias 22
Catur 24
Chiconono 28
Chiulézi 30
Cóbuè 33
Galgolíua 36
Ilha de Metarica 39
Lione 40
Litunde 43
Luatize 45
Lunho 46
Macaloge 49
Malapisia 53
Mandimba 55
Maniamba 57
Marrupa 61
Massangulo 66
Maúa 68
Mecanhelas 72
Mecula 73
Melulucas 79
Meponda 80
Metangula 83
Metarica 87
Miandica “Terra do outro Mundo” 89
Muembe 92
Muoco 95
Murama 96
Namicunde 98
Nanlixa 99
Nantuego 100
Nipepe 102
Nova Coimbra 104
Nova Freixo 108
Nova Viseu 111
Nungo115
Olivença 116
Pauíla 121
Rapala 123
Révia 124
Unango 126
Valadim 129
Vila Cabral 133

Sabias que no Niassa138

SEGUNDO CAPÍTULO - DISTRITO DA ZAMBÉZIA
Mapa 143
Alto Molócuè 144
Chire 149
Gilé 151
Ile/Errego 155
Mabo-Tacuane 159
Milange 161
Mocuba 163
Molumbo 167
Morrumbala 172
Quelimane 174
Vila Junqueiro 177

TERCEIRO CAPÍTULO
TRAGÉDIA DO RIO ZAMBEZE 181

Agradecimentos 188
Iconografia 189
Biografia 190


Os interessados podem contactar PEDRO DIAS pelo Telemovel 914631055 ou através do mail : mpdias@netcabo.pt
Cada exemplar custa 15 euros (quinze Euros) mais os respectivos portes

15 outubro 2009

Ridiculo!!

Sei que o "assunto", em si mesmo é, sem qualquer dúvida, polémico. E, por isso mesmo, muitos de nós não terão a mesma opinião. É quase tão "tabu" como aquilo que os portugueses apelidam de "guerra de África"! Os chamados "Quem de Direito" evitam, e de que maneira (sempre o fizeram) aflorar quaisquer questões que gravitem à volta de tão sério e gravissimo problema nacional. Que o digam a Associação dos Deficientes das F.A. e todos aqueles muitos milhares de ex-companheiros que, anónimamente e silenciosamente sofrem no espirito e na carne, inglóriamente, mas ainda, hoje, continuando a lutar contra os moinhos de vento!
Esta "vergonha" encapotada, inventada pelos conhecidos "poderosos das forças armadas" após o fim das guerras coloniais foi, genialmente, aproveitada pelos politicos que lhes deu continuidade até à actualidade.
O assunto, o problema, a questão,o caso, a "gafe", chamem-lhe o que quizerem, nem por artes mágicas irá desaparecer, acho até, que está imune a qualquer estirpe.
Infelizmente, um caso que já é ridiculo e, por ser anedotário, tornou-se hilariante, esta coisa que este ano lhe chamam "Suplemento Especial de Pensão" para os Antigos Combatentes (este epíteto até me lembra os meus antepassados que penaram na 1ª Guerra!!) que acima "escarrapacho". Verifica-se, então, houve alguém que entendeu pelos bons serviços criptográficos prestados à nação, durante 22 meses, aqui o vosso companheiro de "aventuras", este ano foi merecedor dum prémio de 100,00€ (não esquecer de fazer o devido desconto do IRS no valor de 8,00€. Assim o valor real do prémio é de 92,00€).
Só "lamento" não ter ficado mais 2 meses em Lione (zona de 100%) para agora poder usufruir de mais 50%.!!!
Não esquecer que este SEP foi capeado e chancelado no hemiciclo da A.R. de todos nós (Não é Sr. Prof. Dr. P.R. Anibal Cavaco Silva?)
Ditosa Pátria que tais filhos tem (Não é Poeta pedinte Luis Vaz de Camões?)

14 outubro 2009

HOMENAGEM AO MEU TIO

O título deste texto pode parecer-vos algo estranho. Porquê andar aqui a prestar homenagem a um elemento da minha familia? É simples, é que o meu tio foi nosso companheiro das mesmas "guerras" e "aventuras" durante a nossa permanência em Luatize. Era furriel e pertencia ao pelotão que o Batalhão de Tenente Valadim, tinha destacado para aquela zona, e que nos receberam quando lá chegámos.
Talvez haja ainda alguém que se lembre. Por isso, e pela obrigatória e sentida homenagem que aqui lhe quero prestar, indico os nomes, a saber: Fur.Azevedo (c/seta); Alf.Seabra (ao centro em baixo); Fur.Coimbra (ao centro em cima) e o "infiltrado" Castro (lado dir.). Falta ainda o Fur.Damas (julgo que era de Mira). Foram excepcionais comigo, sempre disponiveis para ajudar. Lembro-me até que me arranjaram umas instalações bastante impróprias, mas era o que havia (anos antes tinha sido o local onde guardavam sacos de farinha) para poder desempenhar a contento a arte da criptografia! Mas com umas boas lavagens e afastamento de milhões de roedores, aquelas ruínas transformaram-se quase num palácio!
Tudo gente boa e ainda me recordo da forma como foram inexcediveis no apoio que, dentro do possivel, tentaram prestar, noite adentro, ao infortunado Marcelino naquele fatídico 23Junho69.
Voltando ao meu tio Azevedo, é uma história igual a tantas outras, só achando graça, talvez por ser única, em todos os teatros de guerra do nosso império!!
Conhecio-o por mera casualidade, conforme podia não o ter conhecido! Acho que foi logo após a chegada a Luatize. Segundo os meus apontamentos foi no dia 22 de Junho 69. O nosso radiotelegrafista milagreiro Moreira, depois de lhe terem dado um casinhoto escuro e sujo, conseguiu instalar e sintonizar a muito custo aquela geringonça do radio, pois era hora da final da taça de Portugal em futebol entre Académica-Benfica (1-2). No meio do barulho ensurdecedor e de todas aquelas interferencias (assim a modos fundo dum poço) lá iamos conseguindo ouvir qualquer coisita, por vezes audível). Nessa altura aproximou-se de nós um furriel do pelotão "dos outros" e pediu licença para tb. ficar a ouvir o relato. Foi aí que o Moreira se me dirigiu, dizendo: "Oh Castro...........". E, fosse lá o "feeling" que fosse, logo de imediato o tal furriel se me dirigiu e indagou: "Eh, pá desculpa lá, mas tu chamas-te Castro? E de onde és tu, pá? Curiosamente, logo lhe respondi: "Sim, meu nome é Castro e sou da Parede, perto de Lisboa". Mais perguntas menos perguntas que agora pouco interessa, aconteceu qualquer coisa deste género: "Oh, meu querido sobrinho vem aos meus braços! Eu sou teu tio!!"
Por indicação dos meus pais, realmente eu sabia, assim como ele, que havia um sobrinho e um tio destacados em Moçambique, ao mesmo tempo. A curiosidade é que não nos conheciamos, nunca nos tinhamos visto. Ele morava em Albergaria-a-Velha e eu na Parede. Talvez a distancia e a independencia da vida de cada um de nós contribuissem para esse resultado.
Foi realmente algo "sui-generis" e muito agradável. A partir daqui estivemos 24h/24h em contacto directo, vivendo ambos os graves problemas que nos aconteceram e que são do conhecimento de todos. Lembro até que após a refrega do ataque a Luatize ainda lhe dei uma ajuda chegando-lhe granadas para o morteiro que ele, na zona da cantina, segurava nos joelhos
disparando na direcção que ele entendia que os "fugitivos" percorriam.
Após a nossa chegada à Metrópole, continuámos a nossa grande amizade, nascida em Luatize, e tinhamos contactos assiduos, apesar de morarmos em locais diferentes. Nos ultimos anos, desde 2002, passamos até a viver na cidade de Lagos. E foi aqui que passamos horas e horas a fio, descontraídamente, em franco convívio, falando sobre as "aventuras" passadas no Indico.
Infelizmente, mais precisamente em Julho deste ano, faleceu, precocemente, com 64 anos, de doença prolongada. Perdi um ex-companheiro, um grande amigo que foi sempre um grande Homem. Ainda acho isto muito estranho e sinto-me mais triste.
PAZ ETERNA A UM BOM HOMEM QUE FOI O MEU TIO AZEVEDO.

RETALHOS DE GUERRA (2)

(Por F. Santa)
   
Há pequenas coisas passadas na guerra que nos ficaram na memória. Episódios tristes e outros com um sabor mais alegre roçando o trágico e até a burla.
       Vésperas de uma coluna a V. Cabral. Aparece á noite na companhia o chefe da aldeia do Lione a pedir, se podíamos levar na coluna alguns aldeões para ir vender o milho a um armazém que existia para o efeito, quase junto ao edifício da Pide. O nosso Capitão depois de falar com eles lá autorizou a viagem.
        Era manhã cedo quando comecei a organizar a coluna, que era somente composta por uma viatura Berliet. Sacos e mais sacos de milho e toda aquela gente a querer ir o que duplicou a lotação, deixando-me um pouco preocupado. Depois de tudo acamado verifiquei que transportava uma pessoa com o filho ás costas a que chamava-mos o “Acordeão”, não sei se vocês se lembram. Partimos com normalidade, e logo percorrido meia centena de quilómetros, ouço uma algazarra na parte de traz da viatura e qual não é o meu espanto que vejo ás cambalhotas pela picada fora a dita pessoa com o “Acordeão” ás costas. Como é de calcular, fiquei preocupado com a situação pois eu era o responsável pela coluna e se houvesse ali uma morte eu estava metido num monte de trabalhos. Alguém se há-de lembrar desta história. Resultado: parei e qual não é o meu espanto, vejo a dita cuja levantar-se, o filho continuava ás costas, limpou-se do pó e subiu logo de seguida para a viatura, isto tudo sem qualquer ferimento em ambos!
Depois deste susto lá  partimos. Chegados a V. Cabral deixei-os ao pé do armazém para depois à tarde ir buscá-los, indo de seguida para o “Coelho” comer um franguinho de churrasco. Terminado o almoço tratou-se da papelada no comando e fui rapidamente para o armazém  para ir buscar o pessoal e não fazer a picada de noite. Quando cheguei o milho estava por pesar pois diziam que só o pesavam á noite o que eu estranhei. Aquilo não me estava a convencer. Entretanto a noite começa a cair e lá vieram ordens para pesar o milho, e o que é que eu descobri? O armazém não tinha luz e eles penduravam os candeeiros na balança decimal  o que logo á partida ia alterar o peso prejudicando quem o vendia e ainda não bastava o peso do candeeiro estes ainda tinham na base uma certa quantidade de chumbo! Levantei  logo ali uma zaragata tal que o milho foi pesado com os candeeiros fora das balanças. A partir daqui não sei se voltaram a pesar o milho da mesma maneira. 
Outra coisa estranha. Quando saia do armazém ao passar pela Pide vi estarem a carregar duas viaturas com “Turras”e perguntei o que se passava, disseram-me então que eram “Turras” que tinham sido apanhados no mato tinham sido interrogados e estavam a ser devolvidos novamente ao mato! Para quê? Respondo eu: para nos atacarem outra vez. Era o dia a dia da guerra no seu esplendor!
 
      Amigo Paulo. Dizes que não tens o meu contacto correcto. Sendo assim vou dar-te o meu contacto actual: 939440799 sempre ao dispor dos camaradas. 

                               Um abraço do Santa para todos. 






13 outubro 2009

A ADMINISTRAÇÃO EM CHALA

(Por A. Paulo)  
Atenção às fotografias !




     Quem se lembra do nome do Administrador de Chala?... E do nome do policia que está ao lado do Paulo e do Moreira?...
     Então vamos lá avivar a memória. Em primeiro plano, cabo verdiano de nascença, temos o administrador Correia Pinto. Ao lado e encostados ao pára-brisas da berliet, a minha pessoa, o furriel Martins e o Pais. Atrás, na segunda fila, temos o Olhanense, o Mareco e o cabo Mestre. Mais ao fundo o Romanito e o Graça, mais conhecido por “Asinha”. Tenho um gravador fantástico na minha tola, não acham?... Por sorte a tinta de esferográfica que escreveu, há 40 anos, os nomes no verso da fotografia ainda está visível.
     Mas, fotogénica, fotogénica está a nossa berliet MG-44-84, certamente a única que estava operacional na altura e na qual “gozamos” algumas horas com o cu tremido.
     O administrador era um durão com o pau na mão e o polícia que se chamava Pissarra, era muito “obediente” ao chefe. E mais não digo.
     Estes gajos, acompanhados dos seus milícias, rebentaram connosco quando fizemos a primeira operação a nível de companhia dentro do Malawi. Bolas...., que estafa.
     Ressalta aqui a boa colaboração que tínhamos com os referidos elementos, especialmente no fornecimento de patos, que o cantineiro Paulo cozinhava muito bem com caril, regados com umas boas bazucadas.
     Já  agora, quem foi o soldado que vendeu ao policia Pissarra por 1.000$00, o dente do elefante que estava morto perto da picada para Chala?...

     Um abraço do Paulo  

 .

11 outubro 2009

11-10-1969 -Saudosa Homenagem


ao inditoso companheiro

Henriques Rodrigues


que tombou há 40 anos


"Emboscada à nossa coluna na picada NViseu, quando vínhamos para Tenente Valadim. Eram cerca das 8 horas da manhã. Tivemos 1 morto o 1º cabo Rodrigues e 5 feridos graves."  (citação da mensagem do A. Castro, aqui publicada em 13/05/09 )


Será possível que alguem comente, indicando quem foram os feridos ? 



10 outubro 2009

“RETALHOS DE GUERRA”


(Por F. Santa)
A nossa memória já  não é aquilo que era, especialmente a minha que já  tem muitas falhas mas mesmo assim cá me vou lembrando de algumas proezas e acontecimentos.   Lembro-me agora, daquela célebre patrulha feita pelo meu pelotão desde Lione a Chala: Partimos de manhã cedo depois de nos equiparmos com as devidas rações de combate (que era a especialidade da casa) e do armamento de primeira qualidade como por exemplo, levar a “Basuca” que estava avariada  não disparava sequer, mas levava-se para fazer de conta e meter medo aos “Turras”. Lá partimos todos em fila indiana mato fora á procura de umas palhotas que existiriam no percurso e que segundo informações era habitada por terroristas. Á frente ia um batedor africano que mais ò menos nos indicava o caminho. A certa e determinada altura, ele manda parar baixa-se, põe um dos ouvidos no chão e diz: É já ali! Pois é, foi quase um dia para chegar ao local e encontrar ainda mandioca quente e nada mais. Chegámos tarde. Já sem água nos cantis lá continuámos o nosso caminho para Chala. A sede apertava. Eis que aparece um pequeno rio mas para desespero nosso não levava água, foi então que alguém do grupo descobre umas pegadas de elefante no leito do rio em que nelas se depositava alguma água, com as mãos conseguimos beber e soube tão bem como de cerveja se tratasse. Cai a noite e a dificuldade aumenta, a noite está escura (o que não era muito usual) e o trilho era difícil de encontrar, quando demos por ela estava-mos perdidos e segundo cálculos feitos em cima do joelho, já tinha-mos ultrapassado a fronteira para o Malawi. E agora? O milagre aconteceu, o gerador do Chala que não trabalhava todos os dias naquela noite trabalhou e ao longe lá se ouvia o “ta-ta-ta-ta-ta”da nossa salvação sendo a partir daqui a nossa orientação. Estava-mos quase a chegar e eis que o amigo Santa cai dentro de um buraco mas não me aleijei pois o dito buraco estava devidamente forrado por “Feijão Macaco”, suado da caminhada e cansado foi um final de etapa apoteótico. Resultado, tive que apanhar um banho de terra antes do banho de água receita do então administrador do posto de Chala.

Termino aqui o meu primeiro retalho de guerra, outros se seguirão. Fico contente pelo meu amigo Artur ter voltado e cá fico á espera do bendito “Galo”. Mais uma vez deixo o meu apelo para que todos os nossos camaradas entrem em contacto connosco. Onde está o Madureira o Afonso o Braga o Miranda e tantos outros? Apareçam! Estou convencido que as tirinhas de papel que foram dadas no nosso último almoço no Algarve com o nosso endereço, a maior parte perderam-nas e a única possibilidade agora é no envio de cartas para o próximo convívio.

 Por hoje termino enviando um abraço para todos.

                                                                                                       
                                                               Ex. furriel Santa 





09 outubro 2009

A AVIAÇÃO PRESENTE AO TEMPO


      Que máquinas?.... Quantas eram?.... O que faziam?.... 

(Por A. Paulo) 



      Lembremos hoje os meios aéreos que nos apoiavam nas nossas missões terrestres, com a apresentação de duas fotografias em que destacamos, primeiramente eu e os nossos camaradas da nossa CCav. e depois, como pano de fundo, um avião de carga e transporte de pessoal denominado NORATLAS, o mais barrigudo, e um avião de caça e ataque ao solo chamado FIAT, o mais elegante.
     Estas fotografias foram obtidas na pista militar de Vila Cabral, quando o nosso pessoal ali presente, se preparava, penso eu, para apanhar boleia para Tenente Valadim para se juntar ao resto da Companhia que se encontrava em intervenção em Luatize.
     Ora vejam a simplicidade do nosso camarada Moreira, que trajava à civil, como que a dizer-me que ele era o dono do avião FIAT, mas felizmente ou infelizmente não era dele nem era nosso.
     Este avião a jacto, (em número de dois para o distrito do Niassa e arredores), veio substituir no ano de 1969 o velhinho T-6, aquele mono-motor a hélice do tempo da II guerra mundial, que, quando em altitude, fazia um barulho próprio audível a quilómetros de distância. Graças a Deus foi este avião que  acidentalmente sobrevoou a picada de Tenente Valadim, quando rebentou a mina no Unimog da nossa CCav. e que foi buscar o helicóptero a Vila Cabral para transporte dos feridos.
     E quem não se lembra da avioneta DORNIER, mais conhecida por “DO”!?... Aquela que fez uns voos rasantes ao campo de futebol de Luatize e lançou os sacos com correspondência e carne para a CCav. 2415 que ali se encontrava há mais de três meses e que tinha como castigo fazer IAO (instrução de aperfeiçoamento operacional) por ordem do Com.Sec., pois não havia viaturas de transporte do pessoal  para descanso em Vila Cabral. Destes gajos ficou-me sempre na memória a frase: -“A berliet não é para transporte de pessoal mas sim de carga, as viaturas berliet compram-se e os homens requisitam-se”.
      Tínhamos ainda um helicóptero ALOUETTE III para o distrito do Niassa. Por acaso, às vezes aparecia quando era solicitado. Outras vezes ou estava avariado ou estava a rectificar o motor. Algumas horas perderam estas máquinas a sobrevoar a casa do governador Melo Egídio em Vila Cabral que tinha uma filha bela e moça. Lembram-se?...

Um abraço do Paulo

.

07 outubro 2009

Outubro negro...

... foi o de 1969 para a nossa Companhia. Três dos nossos companheiros ( o Henriques Rodrigues, a 11, o J. F. Rodrigues da Silva e o Avelino Corado, a 30) deixaram-nos. E, logo a seguir, a 6 de Novembro, foi o João Vaz dos Santos.
Vem sendo hábito deixar aqui uma referência de homenagem no aniversário dos nossos mártires.
Não possuo quaisquer elementos (nem sequer memória pessoal) destes tristes acontecimentos. Com certeza recordarão os meus companheiros que eu saí da Companhia pouco depois do ataque  do Luatize.
Nesse sentido deixo aqui este apelo: que quem se lembrar me envie por e-mail (manuelsoares46@gmail.com) ou por correio ( Av. Correios, 150     4775-446 NINE) relato dos factos ocorridos, e/ou, se possível, fotos (dos falecidos ou outras), para aqui serem publicados.
Aproveito para agradecer e louvar a tão preciosa e artística colaboração do Santa e do Paulo, sem a qual este site estaria definhando, como tantos outros...
Claro, não esqueço os iniciadores, o Magalhães e o Castro ! E o Afonso, com as fotos!

Manuel Soares 

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29 setembro 2009

MEDLEY DA GUERRA

(por F. Santa)       
  
Começo este “medley” da guerra com uma pergunta: Onde estão os nossos camaradas? Onde estão essas histórias para contar?

Vou então começar pelas vésperas do embarque. Uns dias antes eu o Quintino e mais dois que agora não me lembro, fomos para o presunto e vinho verde lá para os lados do “Caramanchão” d`Ajuda e de seguida para o “Intendente”.De regresso, apanhámos o eléctrico para a Calçada d'Ajuda, era o último só com quatro passageiros que éramos nós. Como se lembram o eléctrico parava no cimo da Calçada e não vinha para baixo, pois não havia linha, mas o Quintino queria que o eléctrico viesse a Cav.7, tendo mesmo parado algum tempo até se resolver o problema: vir a pé. Era a força do Verde!

Na véspera do embarque fui fazer a despedida para o “Ritz” com uns colegas que estavam em Lanceiros 2. Resultado: uns copos a mais e a chegada a Cav.7 já fora de horas e ser o último a chegar ao local de embarque.

Agora já no barco, lembram-se daquelas aulas de ginástica? E daquele célebre conjunto que tocava quando do almoço? Pois é: éramos uns músicos! Em Vila Cabral quem se lembra do Café Planalto e de alguns bons bocados que lá passámos? E dos “Monhés”? Aquele que tinha as duas filhas e uma delas a “Faradiba” ou “Faraida” já não me lembro bem, que era feia e o pai dava um bom dote a quem casasse com ela? Do célebre restaurante “Coelho” onde se comia um bom frango de churrasco? Daquela célebre patrulha do terceiro pelotão que se perdeu, andou por terras do Malawi, acho que é assim que se escreve, e que só o som do motor do gerador de Chála é que nos salvou? Do Norberto que ia cantar fados de Coimbra para o posto de vigia do lado do rio em Chála? Pois é. A minha memória já é muito má para recordar estes episódios ao pormenor, por isso deixo aqui muito pano para mangas para camaradas nossos entrarem em contacto e bem ó mal como eu desabafarem! Vamos a isso. Abram o vosso baú das memórias, não podemos morrer no tempo, escrevam !

Depois de tanto escrever, não podia deixar de prestar uma homenagem ás nossas mães, que tanta influência tiveram enquanto combatíamos dedicando-lhe este poema de Rosa Lobato Faria:

INESGOTÀVEL CORAÇÂO.

Nas agruras do mato
Sob o olhar da morte
O teu retrato, mãe
É que me dava sorte

Era a tua lembrança
Que me dava coragem
E a esperança tinha, mãe
A tua imagem

Quem me salvou a vida
Foi a tua oração
E a batida, mãe
Do teu inesgotável coração

Agora a minha luta
É este dia a dia
E é o teu rosto, mãe
Que me alumia

E pecador que sou
Se um dia entrar nos céus
Saudoso dos teus braços
São os teus olhos, mãe
Que hão-de guiar os meus
A dar, na mão de Deus
Os meus primeiros passos.


Olá Artur! Por onde andas tu?
Um abraço para todos do Santa.


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25 setembro 2009

O começo da guerra...

25-09-1964 
 Testemunho de um interveniente:
“O polícia veio e estacionou à porta da casa do chefe de posto, sentado numa cadeira. Era branco. Eu aproximei-me do polícia para o atacar. O meu tiro era o sinal para os outros camaradas atacarem. O ataque teve lugar às 21 horas. Quando ouviu os tiros, o chefe de posto abriu a porta e saiu – foi morto por um tiro. Para além dele seis outros portugueses foram mortos no primeiro ataque. A explicação dada pelas autoridades portuguesas foi “morte por acidente”. Retirámos. No dia seguinte fomos perseguidos por algumas tropas – mas nesse momento já estávamos longe e não nos encontraram.”
Alberto Chipande, que conduziu uma dúzia de homens, descreveu assim no seu relatório a ocorrência naquela noite de 25 de Setembro de 1964.


Transcrito deste Blog   

 Outra versão:


"Completam-se hoje as 21:00 de Moçambique (20:00 em Portugal) 39 anos  (escrito em 2003...) do primeiro ataque (oficial) da Frelimo e sua guerra de libertação do país. Foi no Chai, a norte de Macomia a escassos 10Kms do rio Messalo.
Tinha 8 anos, estava lá, assim como os meus pais, não morri... nem ninguém morreu de ambos os lados, e lembro-me de quase tudo. Tudo aquilo se resumiu a 2 rajadas de metralhadora (uma de cada lado).
Demorou 1 ou 2 minutos e depois foi a fuga dos atacantes.
A minha mãe lembra-se que nesse dia a tarde, andou uma pessoa desconhecida ali nas lojas no Chai e com umas ligaduras na perna ou no pé. Andou umas 2 horas a "passear-se" pela localidade. Veio-se a saber mais tarde que essa pessoa desconhecida andou a fazer o reconhecimento da zona.
A data, hoje em dia, é comemorada em Moçambique como Dia das Forças Armadas."
(Citado aqui, com interessante polémica...)  


 

            

20 setembro 2009

...VISÕES...

(Ant. Paulo) 
            Tambores, fanfarras, guiões, bandeiras e estandartes
      Fardas em desfile
      Hinos
      Pátria amada. Filhos da Nação
      Discursos moralizantes
      Vassalos e mandatários de governantes
      Donos da guerra e da paz
      Cais de embarque
      Multidões chorantes
      Mães, filhos e esposas delirantes
      Beijos, abraços, gritos, desmaios, angústia, dor, sofrimento
      Mar calmo, mar revolto, mar imenso
      Caminho das Indias
      Viagem com esperança no regresso
      Cabo das Tormentas
      Ventos orientais africanos
      Descarga de gente requisitada e numerada
      Semblantes carregados. Incertezas
      Lione, Chala, Matipa, Vila Cabral, Luatize, Tenente Valadim
      Lugares marcantes
      Picadas, trilhos, caminhos errantes
      Caminhadas imensas, caminhadas intensas
      Selva, embondeiros, capim, feijão macaco
      Bichos selvagens, moscardos, moscas, mosquitos
      Cansaço, desânimo, sede, esgotamentos
      Doenças e acidentes. Paludismo. Desfalecimentos
      Trovoadas, chuvas torrenciais. Rios cheios, rios vazios
      Cacimbo, lama, pó
      Miséria e  fome
      Crianças inocentes, barrigas grandes, umbigos salientes
      Psico
      Cartas, aerogramas e outras missivas
      Madrinhas de guerra, abençoadas divas
       A berliet, o unimog, a cabra do mato
      Viaturas para colunas, colunas sem viaturas
      Espingardas, bazucas, morteiros, granadas, minas
      Metralha, explosões
      Nervos à flor da pele
      Gritos de dor, gritos de raiva
      Sangue
      Aviões e helicópteros
      Urnas de chumbo
      Homens de luto chorando
      Soldado que não volta à sua terra
      Vendilhões de patriotismo que espetam no peito cruzes de guerra
                               …...............
      Pela calada da noite é a fraqueza que vem
      Sinto nos meus olhos as lágrimas de minha mãe

  Ex-fur. Paulo

19 setembro 2009

O COMBOIO DO CATUR

(Por A. Paulo)
 
Já  agora deixem-me recordar a viagem do nosso comboio a que se refere o meu amigo Santa. Parece que tem muita “pintura” mas a história é verdadeira.


      O trem a vapor era do tempo do oeste americano. A linha era tão estreita que os carris mais pareciam os do eléctrico. As carruagens acompanhavam e complementavam o resto do cenário. Até parece que tinham as rodas quadradas.
      Saímos do paquete Vera Cruz, em Nacala e como era normal nestas coisas, mas para nós era a primeira experiência, muito apreensivos. No cais tínhamos a recepção há muito desejada e esperada pelos VELHINHOS. Homens queimados pelo sol africano, com os camuflados amarelados e esfarrapados pelo uso, deram-nos as boas vindas. “Ó checa sai do barco”, gritavam uns. “O barco é nosso, ó checa”, proferiam outros em explosão de alegria.
      Os “checas” éramos nós. Era o nome dado aos “maçaricos” que chegavam da Metrópole com as suas fardas verdinhas, quase engomadas e a cheirar a naftalina. Que lindo nome nos arranjaram.
      Aqui a conversa já era outra, pois os galos de crista vermelha que empoleirados no seu trono viram desfilar os franganotes em Lisboa e Lourenço Marques, já cá não estavam. “Meus filhos, tomai esta ração, crescei e façam-se frangos do campo e... o resto salve-se quem puder”.... As ordens são para cumprir e não se discutem.
      “Ó pessoal vamos lá receber as armas”, gritou alguém da nossa CCAV. E o nosso pessoal alinhado lá se foi chegando aos camaradas da companhia cessante, que com a amabilidade e tratamento personalizado q.b., fizeram a entrega da inseparável espingarda G-3. ...E agora para o comboio que se faz tarde.
      Parece-me que nos estavam destinadas três carruagens, que tivemos de dividir da melhor maneira, para homens, armas e bagagens, a contar com os dois dias de viagem que tínhamos pela frente até ao final da linha – CATUR. Que sorte a minha ter arranjado um pequeno espaço no corredor, que com os papelões das caixas das rações de combate e uns centímetros roubados à casa de banho, de porta aberta, proporcionaram a minha confortável cama.
      E lá arranca o malfadado comboio puxado por uma pequena maquineta a vapor, lento como o caracol, com destino às portas da guerra – Nova Freixo.
      Passou a noite. O dia estava a amanhecer o que me fez levantar da minha improvisada cama, torcido claro, e olhar através da janela do meu “compartimento”. Ou eu estava tonto, bêbado de sono ou então levantei-me ao contrário. O comboio estava a andar para trás, com mais força do que andava para a frente. O que se passa?!...
      Era verdade. Aquela pequena máquina a vapor não tinha canetas para subir o desnível que tinha pela frente e então estava a fazer marcha atrás para apanhar embalagem para transpor o obstáculo. Sem êxito, claro, pois cada investida ao objectivo foi sempre um fracasso. Em bom português, “borrava-se” toda espalhando vapor por todo o lado. Por fim encontrou-se uma solução, que foi partir o comboio ao meio e levar metade de cada vez  à estação de Nova Freixo. Por fim chegámos à denominada “ZONA DE GUERRA”.
      Quem diria que ali perto da estação do caminho de ferro estava um laranjal!...
      “Ó senhor dê-nos lá uma laranja”, pediram algumas gargantas secas ao dono que ali se encontrava. “Tá bem, diz o homem, colham desta e daquela”. E então em escassos segundos as laranjeiras ficaram despojadas dos seus apetitosos frutos e quase sem folhas. Por acaso eram deliciosas e souberam bem.
      Agora a próxima paragem era já o Catur. Meteram o rebenta minas à  frente da máquina, que puxava as inúmeras carruagens do nosso comboio militar, agora ajudada por outra que no fim da composição empurrava como podia para concluir a sua penosa tarefa.
      Guerra é guerra!... E lá começamos a meter os canos das espingardas pelas janelas fora, não fosse o diabo tecê-las, para uma reacção mais rápida ao ataque dos “turras” que por ali poderiam andar.
      “Ó checa, a guerra é lá em cima”, gritavam os velhinhos, que perto da linha assistiam à passagem do nosso comboio.
      E foi aqui, nesta viagem inaugural, que começou a nossa PSICO. Centenas de bolas de queijo, concretos de fruta e outros excedentes das rações de combate eram lançados às crianças, nuas ou seminuas, que junto à linha, com a suas barrigas dilatadas, nos acenavam em sinal de agradecimento.
      Enfim Catur. Zona essencialmente militar onde os comboios chegavam ao fim da linha. Vários veículos militares –Berliet Tramagal- esperavam por nós para nos darem “boleia” até Lione. Naquele tempo o nosso GPS indicou-nos que o melhor era ir por Nova Guarda, via Vila Cabral, pois lá para os lados de Massangulo, (via alternativa) mais precisamente no caracol, havia muitas curvas,  o que poderia provocar muitos “enjoos” ao pessoal.
      Já  era noite quando chegamos ao nosso destino –Lione-, onde os velhinhos nos receberam com archotes e tiros para o ar e depois...... Ponto final, parágrafo. Cada um de nós tem a sua “história” para contar. Pode ser dura, mas é a realidade.
      Já  agora duas fotografias alusivas ao nosso comboio. 







Um abraço do Paulo










16 setembro 2009

E O FILME CONTINUA ...

(Por  F. Santa)
Quem não se lembra do filme: O comboio do Catanga? Pois eu vi esse filme antes de ir para a tropa e nunca pensei reviver quase na prática o mesmo, como todos nós vivemos.

  O célebre comboio que nos transportou até “Catur”, levando no seu interior aquela massa humana apinhados uns em cima dos outros debaixo daquele calor tórrido ficou até hoje na minha memória e com certeza na vossa também. Ainda me lembro do rebenta minas que ia à frente das duas máquinas a vapor que puxavam todo aquele comboio, que mais parecia uma serpente gigante serpenteando pela selva fora. Lembro-me ainda quando aparecia uma subida, lá parava o comboio e lá ia o preto (com o devido respeito) poste acima como um macaco, levando consigo o telefone para informar a estação mais próxima que o comboio tinha que ser fraccionado. E o que acontecia? Lá ia metade do comboio e a outra metade ficava á espera.
  Chegados a “Catur”, já era noite e lá fomos para “Lione”cobertos de pó da picada qual moleiros de farinha amarela! Deixamos o cavalo de ferro a descansar da sua caminhada. Foram vinte e tal dias de barco; cerca de quarenta e oito horas de comboio, e finalmente tinha-mos chegado ao cenário de guerra. Lembro-me ainda de alguns avisos: A partir de agora não há postos; os oficiais podem dormir com soldados, e se possível todos põe bala na câmara! As divisas passarão a ser as camufladas.
  Não me lembro de mais nada neste momento, mas com certeza haverá mais episódios que alguns se hão-de lembrar, e sendo assim continuem o filme.


Que tudo quanto vimos
Que tudo quanto vivemos
Que tudo quanto agredimos
Que tudo quanto sofremos


Se grite bem alto
Aos quatro ventos
Para que o povo acorde
e todos nos libertemos!
      “Capitão Calvinho” 
                                      


      Mais uma vez: Um abraço para todos.
                                                              
                Santa
  

12 setembro 2009

AS TRANSMISSÔES


     (Por Ant. Paulo)

Hoje vamos dedicar um pequeno espaço às transmissões. Não são transmissões de propriedade, nem transmissões de pensamento. São mesmo transmissões de transmitir, ou seja, telefonar através daqueles caixotes obsoletos, alimentados por baterias que mal suportavam as cargas e orientados por cordas de estender a roupa.
      Tempos difíceis e de sacrifícios, mas o pessoal lá cumpriu a sua missão  com o melhor empenho possível. Um abraço a todo o pessoal das transmissões.
      Mando uma fotografia com o dito pessoal, com excepção de dois elementos que na altura não eram da comunicação, mas são agora.
      Agradeço que me digam o nome dos três elementos menos conhecidos por mim, para anotar na fotografia.
      Um abraço do Paulo

  

06 setembro 2009

Exposição de Fotografia



Todos nos recordamos do (ex-alf.) M. Magalhães como apaixonado pela fotografia e cinema. Creio até que era o único detentor, em toda a Companhia, de uma máquina de filmar em formato super 8 (ao tempo, o topo de gama para amadores...) , e já era leitor dos Cahiers du Cinéma

 O que nem todos saberão é que ele continuou o seu percurso, tornou-se um perito em História da Fotografia, especialmente em Portugal e na cidade do Porto, onde vive. E tem percorrido o mundo, sempre de máquina em punho.  É impressionante o número de exposições, individuais e colectivas, em que tem participado em  Portugal e no Estrangeiro.

É por isso, e a oportuna sugestão do A. Castro,  com o maior prazer que tomo a liberdade (sem o  consentimento do visado...) de aqui publicitar mais uma Exposição Fotográfica que estará patente no Porto (Galerias Serpente, na R. Miguel Bombarda,558) a partir do próximo dia 16.



E UM APELO: Que  o M. Magalhães encontre algum tempo, na sua vida atarefada, para partilhar connosco, neste BLOG que em tão boa hora iniciou, alguns instantâneos da nossa vida em África, que com certeza conservará nos seus Arquivos. Valeu?



02 setembro 2009

A GUERRA

(Por  F. Santa)

Lendo o livro de poesia do nosso camarada Capitão Calvinho, deficiente das Forças Armadas, não podia deixar de transcrever para todos um excerto do prefácio do mesmo livro da autoria da Associação dos Deficientes das Forças Armadas que diz o seguinte:

“ Os homens vitimados pelas minas e pelas granadas, nas matas e nas picadas, maltratados nos hospitais, escondidos da sociedade, abandonados e desprezados, como farrapos, por quem deles se serviu, jamais calarão a voz da razão, a voz da sua justiça.”

   Para quem não sabe, eu pertenço a esta Associação. Eu sou um daqueles que também ainda não se calou e não se irá calar jamais, tanto em defesa dos deficientes mas também em defesa daqueles que não sendo deficientes, hoje sofrem no corpo os males da guerra que transportarão até ao final das suas vidas e que os nossos governantes de outrora e de hoje sofrendo de “Amnésia” se esqueceram de todos nós.
                  
    Do nosso camarada Capitão Calvinho aqui vai um dos seus muitos poemas:




                “ INTRÓITO”  

Eu não canto o épico da guerra
Não, não canto!
Eu canto a agressão
Que fui e suportei!
--Eu fui à guerra:
MATEI!..
--Aqui estou, hoje e agora,
Amanhã e sempre,
Para gritar em verso ou em prosa
Aquilo que vi, fiz e vivi:
--Porque acordei!
E dou testemunho de tudo quanto canto
Pois tudo vivi como instrumento
E hoje sinto como canto!
--Não quero esquecer a guerra!
Ninguém a deve esquecer!..
A lembrança
há-de ser
até morrer
o permanente estigma
que todas as madrugadas
me há-de mobilizar! 

Tudo isto que nós transportamos para este nosso espaço, não é mais que um grito de revolta suave e também de resignação, mas também um sinal de que estamos vivos apesar das nossas fraquezas.

  Artur. Estás sempre atento! 

  Um abraço para todos.
  F. Santa


 

29 agosto 2009

A MASCOTE

(Por Ant. Paulo)
 
      Perdoem-me, mas esta amnésia é tolerável. Já lá vão 41 anos e isto pesa muito na minha tola.
      Como se chamava a mascote?!... Macaco ou macaca?!.... Parece-me que  era um macaco e que se chamava “CHICO”. Será?.... Vou trata-lo por tal.
      Este chico era o animal que  mais se  destacava no nosso “jardim zoológico” pessoal e particular, que sempre  acompanhava a CCAV. nas suas deslocações e que tinha um estatuto próprio de independência no aquartelamento de Lione, e não só. Era pertença do soldado Oliveira, mais conhecido por “cobra d’água”.
      Devem estar ainda lembrados, os nossos camaradas “ex-”, alferes e furriéis, o local  onde se tomava o pequeno almoço em Lione.
      Claro, numa mesa colocada no alpendre, à saída do dormitório dos furriéis, onde diariamente nos punham o pão acabado de fazer (quando se cozia), acompanhado de uma grande lata de margarina, e...mais qualquer “coisa”.
      Pois este “chico” era o primeiro a chegar à mesa. Quando nós chegávamos já o patife tinha  enfiado as mãos (patas dianteiras) na lata da margarina, chupado os dedos e trincado o pão que nos era destinado. Afinal o pequeno almoço até sabia bem, ou não?!... E as latas de fruta em calda. Ainda se lembram delas?... Parece que custavam 9$00 cada  e vinham da África do Sul. Pois este macaco também gostava muito desta fruta, tendo-se aproveitado várias vezes quando as  apanhava abertas em cima da mesa. Tinham uma calda espantosa.
      Para  ver e recordar o macaco em acção, destaco estas duas fotos onde:
      -Numa o animal, vertical, bebe como qualquer mortal (Chala), e

e na outra temos como pano de fundo o abrigo onde eram guardados os combustíveis  para as viaturas (Luatize) e que servia de dormitório ao chico.


Um abraço do Paulo