sexta-feira, 4 de março de 2016

Continuando...


E o negro certo da morte
Desde a agonia em Bissau
Voltou-se pró capitão
Dizendo com convicção;
- Desde o primeiro dia
Em que fui iluminado
Desta minha condição
De servo escravizado
Que vejo a morte espreitando
Atrás de mim murmurando
Que já lhe sei a sensação!

- Não temo a morte descansa
Ofereço a minha vida
Já assim despedaçada
Ao povo da minha terra
Mata-me já capitão
É essa a tua missão
Pouco valho neste estado
Mas ao Nino e os seus homens
Esses NÃO !...
- Não serei eu capitão
Quem te dá a promoção!

Quero pedir-te um favor
S`inda existe em ti valor
Se és homem de condição
Se tens honra e tens pudor
Respeito pela minha acção
Depois de me teres matado
Tapa-me bem no chão
Com folhas e ervas da mata
É tudo quanto te peço
No momento da partida
Desta amargurada vida

E mantendo a serenidade
Nuns olhos bons sem maldade
O negro foi conduzido
A um gesto do capitão
Para um local onde havia
Alta árvore verde e fria
E da corda que ele trazia
No pescoço pendurada
Lançaram a outra ponta
Por sobre um tronco alongado
Qu`atravessava a picada.

E o negro de olhos molhados
Muito abertos mas serenos
Nem um suspiro exalou
Nem grito de dor se ouviu
Nem gesto d`arrependimento
E os soldados que ali estavam
Uns prós outros murmuravam:
- Tanto que sofre coitado
E não se houve um lamento
Que força é esta que tem
Lá dentro no seu pensamento!

E o alto negro entroncado
De olhos da cor da verdade
Olhava para seus algoses
Vindos de terras distantes
Feitos feras ferozes
E não havia em seu rosto
Já quase transfigurado
Pelo pó no sangue empastado
Nem ódio e nem rancor
Havia um misto d`espanto
Feito de raiva e amor.

         Para a próxima será a última parte. Até lá, um grande abraço.
                                                   SANTA

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