quarta-feira, 1 de junho de 2011

TROPA FANDANGA !!

No texto do Santa de há uns dias atrás a que chamou "Um poema.... e 3 fotos" fui surpreendido, numa delas,  ao dar comigo sentado na lateral  do unimog, em Lione, de saída para Vila Cabral (?).  Mas o mais impensável, e daí chamar à cena tropa fandanga, é verificar que o homem dos códigos, das cifras, das criptografias, tinha nas mãos uma poderosa G 3 para defender todos aqueles atiradores "especiais" à minha volta. Realmente aos 20  anos ainda brincávamos aos "cow-boys" como se fossemos crianças!
Ainda mais gozada, acho eu, hoje mais do que nunca, é a história da minha companheira inicial, uma linda pistola-metralhadora  FBP, a quem  cresceu uma mama redondinha e que foi assim:
Como era das normas, aos militares com a especialidade de operadores cripto era-lhes atribuida como arma de defesa (?) a ligeira FBP (construida na Fábrica Braço de Prata-Lisboa, daí o seu nome) de 9 mm e carregador de 32 munições. E não a habitual e  pesada G 3, pois a missão dos criptos era canalizar todas as suas "energias" para o intelecto de modo a que este "parissem" sempre mensagens decifráveis. Ou seja, os criptos tinham mais em que pensar do que andar aos tiros! 


                                   Vejam como era linda a minha 1ª companheira

Acontece que, certa tarde em Lione, num intervalo da nossa guerra, eu e o amigo Moreira (sempre o Moreira, até faz lembrar o D.Quixote + o Sancho) decidimos ir dar uma volta até às "machambas" da aldeia e  lembro-me bem de ver altos e verdejantes milheirais tratados pelas mulheres nativas.
E, para nos defendermos (?) dos imprevistos, lá puzémos as armas ao ombro, eu a FBP e ele a robusta G 3.
Neste voltar ao passado até me questiono: É pá e se, de repente, déssemos de cara com o "inimigo", o que fariamos?  E sorrio, pois sei que os que me estão a ler respondem prontamente: "F...-..  deitava mas é as metralhadoras fora e pernas pra que te quero"!!
Continuando o passeio pela zona das machambas há uma altura em que deparamos, parece-me, com uma pequena lixeira com latas e garrafas de cerveja. Aquilo foi telepatia de micro-segundo, colocámos os alvos a jeito e, em marcha a ré como faz o Ronaldo quando se prepara para marcar os livres, foi "fogachada" até doer os timpanos.
Não me perguntem quantas vezes carreguei no gatilho, se foi tiro a tiro ou de rajada, se foi só um ou mais carregadores. Já não me lembro. Sei que ficámos tão felizes como se estivessemos na Parede ou no Porto e, assim, regressámos ao posto de transmissões e respectivo anexo.
Até que um dia, eis senão quando, durante a habitual inspeção às nossas companheiras feita pelo Sargento Carvalhão (o velhote da Ca.) para ver se estavam bem limpas e lubrificadas por dentro e por fora de modo a não nos deixarem mal quando delas precisássemos este, num raro momento de lucidez,  conseguiu descobrir que a minha FBP, a meio do cano, tinha um papo enorme e redondinho que mais parecia uma "próstata" dilatada!
Foi o bom e bonito, o velho Sargento "lateiro" quiz dar uma de disciplina militar e vai daí disse: "Tás bem f.....  pá!  Arranjaste a bonita, vais levar uma porrada.  Vou-te levantar um processo disciplinar e nunca mais te safas.   Para já vais ter que pagar uma arma nova ao Estado".
Eu, que não estava a perceber  "patavina" daquela conversa parva, com toda a assistência em redor (foi no cimo das escadas à entrada da secretaria), tendo o "secretário/amanuense perpétuo" Dimas Teixeira Pinto a escrevinhar a ocorrência, perguntei: "Mas ó meu Sargento a que papo se refere que eu não vejo nada?"             E, quando ele apontou para a dita deficiência, disse-lhe incrédulo: "Mas ó meu sargento, eu pensava que este papo era feitio de fabrico  jamais, em tempo algum, tinha dado pela diferença!".
Resposta pronta pois, acho eu, agora, ele demonstrava algum nervosismo, talvez  por ainda não se encontrar  no seu estado de normalidade: "Qual feitio qual carapuça. Levas uma porrada e assunto terminado".
Final da história, no meio dos medos e pseudo-coragens em que viviamos: Não levei porrada nenhuma, antes pelo contrário até fui louvado (ver caderneta militar que tanto me enche de orgulho!!), não indemnizei o Estado (se o tivesse que fazer acho que teria "bazado" para o inimigo por falta de verba para pagar tal objecto) e, para substituição da minha 1ª companheira aleijada foi-me atribuida uma robusta e pesada G 3, a fim de continuar a disparar para o lado que estivesse virado!

Sarg.Carvalhão em pleno exercício do poder. Estaria já a analizar no RDM a tal "porrada" a aplicar?
(Foto cedida por M.Soares)       














           Caderneta militar - Louvor acima referido que me enche de imenso orgulho
 
                                                       


1 comentário:

  1. Ninguém imagina o deleite que me deu a leitura desta tão saborosa crónica: desvendado, enfim, o mistério do papo da arma ...
    Só tive conhecimento deste episódio muito pela rama; o mesmo aconteceu com outros por lá acontecidos.
    As FBP não gozavam de grande reputação de segurança: são referenciados casos de disparo intempestivo (até esgotar o carregador). É fácil imaginar a cena! O primeiro modelo dessa arma só fazia tiro automático: exigia uma grande perícia do operador para disparar só um ou dois projécteis de cada vez. Não sei se a que sofreu hipertrofia da próstata (na expressão tão pitoresca do Castro) era dessas, já que existia também o modelo de 1963 já com opção de "tiro a tiro". Li entretanto ( wikipedia) que a FBP m/1976 foi provida "de manga de arrefecimento do cano" - eles lá saberão porquê!
    As outras pistolas-metralhadoras em uso nas nossas F. A. eram a francesa VIGNERON e a israelita UZI (... as coisas que nós sabemos !!!)
    Resumindo: PARABENS AO A. CASTRO !!!

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