quinta-feira, 1 de abril de 2010

A VIAGEM

Por: F. Santa


Depois da curta viagem de Cavalaria 7 para o cais da Rocha, iniciava-se aqui (fotos) uma outra e grande viagem: Lisboa - Nacala. Nesta altura, só tínhamos o oceano como pano de fundo. Começavam-se aqui a revelar as nossas incertezas quanto ao nosso futuro!

Mais um poema do nosso camarada Capitão CALVINHO:





Que luxo
Viajar num camarote de primeira!
Que chique
jantar, num salão de primeira,
manjares de primeira!
Que pinta
ter conjunto privativo
com  piano, violino e tudo!
Que relaxante
ter um bar flutuante
onde, em fofos sofás
e com ar condicionado,
via jogar ao king, ao bridge
e ao poker!
Que fino
passar tardes tropicais
em privativa piscina
tomando banhos  de mar cativo!.. 
…Não longe
no mesmo barco:
Que merda
mais de dois mil soldados
escravos novos enjaulados
e com grilhetas na alma! 
Que tédio centenas de homens suados
dormitam nos porões
ao som da canção
metálica das máquinas! 
Que vida insuportável
aquela vida de rato
   que não levei
mas sentia!... 
Ali:
jogava-se a vermelhinha,
a sueca, o chincalhão
a bisca lambida;
a bisca de nove era só para aqueles
que tinham a 4ª classe. 
De vez em quando
a  lerpa originava cenas de porrada:
e lá ia o oficial ao barco 
armado em Vasco da Gama
meter-se na vida e costumes do Povo!


Um abraço para todos do SANTA.


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2 comentários:

  1. Não sendo especialmente apreciador de poesia, tenho de reconhecer que esta do Cap. Calvinho é magistral. Parece um documentário.
    Bem hajas, Santa, por no-la teres oferecido!

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  2. Obg. Soares, fui atrás do seu comentário e dei conta deste poema de enorme crueza e realismo intitulado NOTAS DE VIAGEM. Passados tantos anos ainda me incomoda reconhecer que a indiferença e a desigualdade imperavam. Não foi à toa que surgiu a frase "carne pra canhão"!
    Ainda bem que fomos a ultima geração da guerra para sossego dos nossos filhos!

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