quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mais um poema

  Do nosso camarada Carlos Silva aqui vai um poema que eu achei interessante...
PARA BEM SER, NENHUM SOLDADO ESTE DESTINO DEVIA TER
Antes de a Moçambique chegar
Angola quis que eu de Luanda levasse
Para Lourenço Marques entregar
Um abraço amigo e lho entregasse
Não há guerra sem armas perfiladas
Sem rapazes que  deixem solteiras as namoradas
Sem soldados que contém aos que sobraram
Em homenagem aos que o sangue derramaram
Eu que também para aqui vim
E que vi morrer outros por mim
Em memória dos que outrora aqui terão passado
Depois das tormentas e do cabo dobrado
Quando o paquete "Vera Cruz " aqui apeou
E ouvi toda a gente falar Português
Até a pele e a alma se me arrepiou
Como me sentisse em casa outra vez
Como isto é belo e imenso
Dá deste lado do mar
O lago Niassa doce e extenso
A floresta virgem que nem o sol lá quer entrar
A minha velha " G3 "
Que foi feita para matar
Matasse ela, de, quando em vez
Saudades de quem deixei no cais com o lenço a acenar
Quem fez de nós alvos de guerra
Antes nos mandassem cavar terra
Para que matar, por matar, matar a fome
A quem por nada ter, nada come
Ó guerra que ceifas vidas, inocentes
Ceifa trigo que alimente crianças carentes
Que lhes dê esperança e futuro
E que ele lhes seja mais suave menos duro
As balas que dá mata brotaram
E os corpos dos meus camaradas mutilaram
Eu não fui atingido porque a sorte me protegeu
O sangue que a farda e a pele me atingiram não era meu
Quando cheguei, parei e pensei
Como é possível a natureza ser tão generosa
O homem quer ser senhor e rei
Mas não passa de folha de árvore frondosa
Dois mil quatrocentos e quinze, a saber:
Compª de Cavª a que o destino não foi sortudo
Moçambique que os viu morrer
" A estes bravos a pátria pediu tudo"
Lá deixamos a citação do poeta
Numa improvisada parada militar
Para quando a guerra acabar
Se mantenha está homenagem simples e discreta
Ai se a minha espingarda em vez de arma de guerra
Fosse o mais belo instrumento musical
Que me trouxesse as baladas do sino da minha terra
Quando tão longe dela, tiver que passar o Natal
A natureza semeou á não
Está soberba fauna e flora
Fica sempre parte do coração
Quando a gente se vai embora
Quando para Índia aqui ancorados
Descansavam, reabasteciam  e zarpavam
Em dificuldades, esforço e trabalhos dobrados
Sem ambição de honra, glória e fama
  "Em perigos e guerras forçados
Mais do que permitia a força humana" (Camões)
             Este nosso camarada Carlos Silva que connosco fez parte da 2415, tem uma veia poética desconhecida de muitos. Tenho mais dois poemas que enviarei no seguimento deste. 
  Se fores ao nosso blog, diz um olá á malta! Para ti em nome da 2415 um grande abraço.
                                                                        
                                  Para todos um abraço. SANTA.

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