quarta-feira, 3 de junho de 2009


( de F. Santa)

O DIA 5 DE MAIO DE 69


Acabei de ver no nosso site a homenagem ao Srg. Carvalhito e ao Santos. As lágrimas apareceram nos meus olhos. Porquê? Vou contar: Lione, dia 4 á tarde. Era o descanso na companhia. No estádio do Lione realizava-se o jogo de Futebol entre o 3º pelotão e o 4º. Eu era o guarda-redes. Uma bola veio e causou-me uma entorse no meu dedo indicador da mão direita que me impossibilitava dobrar o mesmo. Chegava a noite e eu tinha de ir preparar as coisas com o nosso Capitão, pois no dia seguinte (5) ia com o nosso sargento Carvalhito a Catur. De repente aparece o Santos a dizer que ia em meu lugar porque eu estava aleijado no dedo. O que eu disse que não, mas a força do destino fez com que ele teimasse comigo tantas vezes que eu acabei por ceder, indo ele em meu lugar por troca comigo. Aida me lembro quando estava-mos para deitar o Santos foi buscar uma papelada (não sei onde ele a desencantou) e começou a dizer-me o preço dos funerais para a Metrópole a que eu disse de imediato, cala-te ave agoirenta! Tudo isto foi incrível.
Manhã cedo, o sol nascia e a notícia caía como de uma bomba se tratasse. Eu recordo-me que estava ainda deitado e deitado fiquei como se estivesse paralisado. Não sei descrever o que senti naquele momento, mas sei que ainda hoje quando me lembro, sinto uma angústia profunda por ele ter ido em meu lugar, e penso: Mas porque é que ele teimou comigo? Mas porque não fui eu? Porque tudo aconteceu assim?
Santos, onde queres que estejas, quero que saibas que nunca me esqueci de ti, sempre que falo sobre o ultramar tu estás sempre presente na minha memória o que tu farias se tem sido ao contrário pois tu involuntariamente salvaste-me a vida sacrificando a tua.
Ao escrever estas palavras elas contem a realidade dos factos e servem ao mesmo tempo para te prestar homenagem ao que foste. Que tu estejas em bom lugar na companhia daqueles nossos colegas que também partiram.
É isto que me liga ao dia 5 de Maio de 69. Com certeza alguém se lembra de tudo isto.

Abraços para todos.
Ex. Furr. Santa

1 comentário:

  1. Acabei de ler a belíssima e excepcional homenagem do Santa ao nosso eterno companheiro Santos. A ele a minha admiração e respeito pela nobreza e coragem. Acreditem que ainda me sinto paralisado, estupefacto até incrédulo como se de uma história virtual se tratasse.
    Todos conhecemos a realidade passada, mas quando estas imagens tão nitidas nos são assim relembradas, deixam-nos prostrados, perplexos.
    Sobre o que se passou, e se pararmos para analizar cruamente, chegamos concerteza à conclusão de que, se em vez do Santos tivesse ido o Santa, não seria forçoso lhe acontecer o mesmo infortunio. Tudo dependeria de muitas coisas, independentemente do alto risco da missão. É nestes momentos que até os cépticos empregam a palavra: destino.
    Compreendo, agora, mais do que nunca, a forma de sentir e de entender do Santa sobre tão doloroso acontecimento. Acho que qualquer um de nós procederia do mesmo modo, pois esta enorme "porra" de guerra afectou-nos e nos transformou a todos, duma forma ou de outra.
    Vai ter de continuar a carregar a cruz. E ainda bem para ele.
    Um abraço de admiração e amizade.

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