quarta-feira, 14 de outubro de 2009

RETALHOS DE GUERRA (2)

(Por F. Santa)
   
Há pequenas coisas passadas na guerra que nos ficaram na memória. Episódios tristes e outros com um sabor mais alegre roçando o trágico e até a burla.
       Vésperas de uma coluna a V. Cabral. Aparece á noite na companhia o chefe da aldeia do Lione a pedir, se podíamos levar na coluna alguns aldeões para ir vender o milho a um armazém que existia para o efeito, quase junto ao edifício da Pide. O nosso Capitão depois de falar com eles lá autorizou a viagem.
        Era manhã cedo quando comecei a organizar a coluna, que era somente composta por uma viatura Berliet. Sacos e mais sacos de milho e toda aquela gente a querer ir o que duplicou a lotação, deixando-me um pouco preocupado. Depois de tudo acamado verifiquei que transportava uma pessoa com o filho ás costas a que chamava-mos o “Acordeão”, não sei se vocês se lembram. Partimos com normalidade, e logo percorrido meia centena de quilómetros, ouço uma algazarra na parte de traz da viatura e qual não é o meu espanto que vejo ás cambalhotas pela picada fora a dita pessoa com o “Acordeão” ás costas. Como é de calcular, fiquei preocupado com a situação pois eu era o responsável pela coluna e se houvesse ali uma morte eu estava metido num monte de trabalhos. Alguém se há-de lembrar desta história. Resultado: parei e qual não é o meu espanto, vejo a dita cuja levantar-se, o filho continuava ás costas, limpou-se do pó e subiu logo de seguida para a viatura, isto tudo sem qualquer ferimento em ambos!
Depois deste susto lá  partimos. Chegados a V. Cabral deixei-os ao pé do armazém para depois à tarde ir buscá-los, indo de seguida para o “Coelho” comer um franguinho de churrasco. Terminado o almoço tratou-se da papelada no comando e fui rapidamente para o armazém  para ir buscar o pessoal e não fazer a picada de noite. Quando cheguei o milho estava por pesar pois diziam que só o pesavam á noite o que eu estranhei. Aquilo não me estava a convencer. Entretanto a noite começa a cair e lá vieram ordens para pesar o milho, e o que é que eu descobri? O armazém não tinha luz e eles penduravam os candeeiros na balança decimal  o que logo á partida ia alterar o peso prejudicando quem o vendia e ainda não bastava o peso do candeeiro estes ainda tinham na base uma certa quantidade de chumbo! Levantei  logo ali uma zaragata tal que o milho foi pesado com os candeeiros fora das balanças. A partir daqui não sei se voltaram a pesar o milho da mesma maneira. 
Outra coisa estranha. Quando saia do armazém ao passar pela Pide vi estarem a carregar duas viaturas com “Turras”e perguntei o que se passava, disseram-me então que eram “Turras” que tinham sido apanhados no mato tinham sido interrogados e estavam a ser devolvidos novamente ao mato! Para quê? Respondo eu: para nos atacarem outra vez. Era o dia a dia da guerra no seu esplendor!
 
      Amigo Paulo. Dizes que não tens o meu contacto correcto. Sendo assim vou dar-te o meu contacto actual: 939440799 sempre ao dispor dos camaradas. 

                               Um abraço do Santa para todos. 






1 comentário:

  1. Santa
    Já tenho em meu poder o teu contacto. Obrigado. Espero que nos possamos encontrar brevemente nessa "BRIOSA" cidade. Quantas viagens "enlatadas" e "abarrotadas" se fizeram em condições incríveis que só Deus e nós sabemos.Nós só relatamos uma ínfima parte da realidade. Ninguém nos houve, todos nos ignoram.Do bem ninguém fala. Um abraço.

    ResponderEliminar