Por questão de coerência aqui estou, desta vez para tirar o "quico" ao novo governo pela excelente e mais que justa ideia de "inventar" e pôr em prática uma nova secretaria de estado, chamada Recursos Humanos e Antigos Combatentes que, só por acaso, terá uma senhora responsável de nome Catarina Sarmento Castro. (Aproveito para esclarecer que não é da minha familia, que eu saiba!!).
Aqui no blog, por diversas vezes, expressei a minha indignação relativamente à desprezivel indiferença a que sempre foram votados os ex-militares da guerra colonial, normalmente através de discursos, ora de politicos ora de militares, nos habituais eventos bolorentos em que se obrigavam dar a cara. Era aqui, mais que em outros sítios, que a coragem lhes faltava para olhar frontalmente as centenas de milhares de jovens que deram a vida e a alma em troca de nada. E, por reconhecê-lo, surgiam os silêncios envergonhados. Acho que até ao dia de hoje.
Assim, vamos ter de aguardar para ver o que vai acontecer. Sem nunca ter havido, ao longo dos tempos, qualquer luz ao fundo do tunel, é de toda a justiça que aceitemos a máxima de São Tomé.
À parte, digo-vos que o teor da noticia, através das explicações do Senhor Primeiro Ministro aos jornalistas até me fez engasgar, pois ouvia-a enquanto almoçava, eram para aí 12h30. E digo mais, em meu entender fez até questão de fazer um ar muito sério e "pesaroso" o que, aliás, vindo dum politico, pouco ou nada quererá dizer. Será que é desta que o 10 de Junho também passa a ser da malta que ainda por cá anda? Além de todo o resto, claro..............
As imagens que ontem assisti na Tv durante o telejornal da noite deixaram-me, mais uma vez, indignado. E, como, por enquanto, tenho direito a ela, aqui vai:
O nosso Primeiro anda de visita ás terras de origem e, à chegada, depois dos cumprimentos e das habituais danças folclóricas nativas e, se calhar, antes de atacar o caril de caranguejo, a que tem direito, lembrou-se ou, melhor ainda, alguém se lembrou por ele, de ir visitar um cemitério lá da zona.
Logo pensei que seria para ver/resolver "in loco" campas de militares portugueses mortos na guerra colonial e lá esquecidos. Juro que, enquanto assistia às imagens, passou-me pela mente: "olha nas próximas vou votar no gajo" . Mas, eis, senão quando, o nosso Primeiro pega numa coroa de flores e dirige-se para um mausoléo homenageando os heróis combatentes da 1a. guerra mundial.
Juro, de novo, que fiquei estupefacto e incrédulo. Até ali, a doze mil km de distância, a saga da 1ª guerra continua, quando outra que só tem 50 anos é liminarmente/propositadamente esquecida. Como a gente diz na nossa terra: Não lembra ao diabo!
Prefiro terminar por aqui, pois a minha irritação é tão grande que iria, a partir de agora, escrever palavras desaforadas e indelicadas.
Mas, não sem antes dizer e, sem querer entrar em politiquices, há dias atrás assisti também na Tv durante uma visita à Guiné do Dr. Rui Rio, do PSD, dirigindo-se a um cemitério local e junto das caixas com as ossadas de militares lá falecidos e esquecidos procurou saber da realidade actual.
"As acções ficam para quem as praticam"! O Dr. Rui Rio deu uma cabazada ao governo!
Fiquei de alma cheia como se costuma dizer! Sei que muitos não ligam "peva" ao assunto, ou fazem que não ligam, outros evitam recordar, falar ou debater o passado, invocando não terem paciência mental e emocional que a idade lhes foi tirando. Só tenho é de respeitar mas ainda bem que não perfilho nenhuma dessas teorias. E, acho eu, também, que a maioria está do lado contrário, daqueles a quem o passado não incomoda, e ainda bem que assim é.
Isto a propósito do filme "Cartas da Guerra" que a RTP passou ao serão num destes últimos fins de semana. E, como digo, encheu-me a alma de emoções, pois aquelas cenas ficcionadas e passadas com outros militares, posso dizer, com toda a propriedade, que a CCav.2415 também lá cabia inteirinha.
As cartas e os aerogramas carregados de juras de amor eterno que voavam semanalmente dum lado para o outro e, após chegados à metrópole, logo eram atados com fitinhas cor-de-rosa.
Quem as não tem? Ou nunca as teve? Acho que ninguém, só que hoje estão cheios de pó e amarelecidos dentro de um qualquer baú ou sótão ou até já destruídos, quem sabe?!
Este filme entrou no circuito no verão de 2016 e nunca tive oportunidade de o ver, felizmente, agora, entrou-me casa adentro. É baseado em escritos (cartas) que o famoso António Lobo Antunes, na altura alferes-médico num batalhão em Angola, escrevia à sua jovem esposa deixada em Lisboa.
Para os que já viram ou ainda irão ver deixo aqui, entre as muitas cenas "gagas" do filme, aquela do major a perguntar ao "impedido" quando é que o rancho ia mudar para qualquer coisa mais comestível, pois estava farto de lhe servirem ao almoço e ao jantar sempre a mesma coisa: arroz com salsichas ou atum com arroz, e já não aguentava mais!
Fiquei muito admirado pois não sabia que os majores, mesmo dentro dos batalhões no "mato", estavam sujeitos àqueles suplícios. Será? Tenho sérias duvidas!
Enfim, afinal o que importa, seja um filme ou um livro a conclusão é sempre a mesma, vale bem a pena conseguir algum tempo para olhar o passado.
Todos conhecemos bem e ainda nos lembramos desta célebre frase que a RTP atirava para o ar em vésperas de Natal.
Para os que nunca ouviram falar em tal, digo-vos que era a mais icónica, além de outras como: passem um Natal Feliz e um Novo Ano cheio de propriedades.
Durante a chamada "guerra colonial" muitos dos militares que por lá passaram foram convidados a enviar mensagens de Natal, ao vivo, para as suas famílias saudosas na metrópole. Para isso a RTP deslocava-se às colónias e ajudada pelos serviços de filmagens das Forças Armadas entravam mato adentro até em zonas perigosas de 100% para junto da malta filmarem e gravarem as ditas mensagens que, posteriormente, passavam na televisão em horário nobre, julgo que à volta do Telejornal da noite.
Era uma das formas das famílias, que cá ficavam a sofrer pela ausência dos seus, conseguirem olhar e acreditar que ainda estavam vivos.
Pois a mim também me tocou essa sorte e fui colocado na fila da malta, julgo que sorteada para o efeito. A coisa era muito simples, o companheiro da frente após gravar a sua mensagem logo passava o microfone para o de trás que, em muito pouco tempo, tinha de dizer o que lhe ia na alma. E, sucessivamente, pois a equipa de filmagens teria que pôr os pés à picada e não havia tempo para decorar o "script" de cada um.
Desse modo, lembro-me de ver o "técnico da claquete" meter-me à frente do nariz a dita e bater a tampa dizendo: pode falar , enquanto recebia o microfone do anterior.
Ora, como não nasci para actor, só sei que o nervosismo (não digo "stress" porque foi em 1968, e nessa época nem sonhávamos vir a usar essa palavra) deixou-me todo tolhido sem saber bem o que dizer e, então, com a boca em cima do microfone lá consegui balbuciar: VOU FALAR PRA PAREDE pra meus pais, etc. etc. etc. - Cabo Cripto - fulano de tal.
E logo passei o micro que queimava ao gajo a seguir.
Ou seja, não é habitual encontrar pessoas que falam para a parede, pois são tolinhas, mas devo ter sido dos poucos que falou para a freguesia da Parede, concelho de Cascais.
Acontece que a minha família quando soube que eu iria aparecer no ecrã da RTP passou a vigiar o aparelho e, tanto esperaram que acabaram por me ver e ouvir a dizer: "Vou falar pra Parede".
E, vejam bem, até tiraram uma foto com "flash" ao seu mais que tudo escarrapachado no ecrã, só que, após a revelação do "rolo" a foto saiu preta. Altas tecnologias daquele tempo!
Na continuidade do excelente artigo de opinião intitulado PORQUÊ? que o Santa escreveu no passado dia 6 deste mês, não posso deixar de o relevar mas, também, acrescentar alguma coisa mais sempre que o assunto é desta natureza.
Amigo, sei bem que és filho de boa gente, eu também sou e, felizmente, muitos mais. Por isso, nunca viramos a cara para o lado e, até ao fim, vamos estar sempre na defesa da dignidade.
Infelizmente, tiveram de ser sacrificados acabando as suas vidas naqueles infernos à volta de 10.000 jovens (digo dez mil e não mil nem cem nem dez) havendo, ainda, a acrescentar os feridos e incapacitados para o resto da vida um numero chocante de aprox. 100.000 seres humanos.
Apesar de já terem passado cinquenta anos e termos sempre a martelar nos nossos subconscientes "o tempo tudo apaga", de modo algum se deverá esquecer uma realidade tão profunda e dolorosa. Até porque foi a nossa realidade! Que me desculpem as gerações da 1ª guerra mundial que tantos horrores sofreram.
E, se esta dita realidade não nos incomodar, então somos, com certeza, outros seres quaisqueres. Humanos é que não!
Seja escrevendo continuando a denunciar, seja informando nas escolas e similares e, ainda, chamando pelos meios possíveis a atenção dos eternos "cobardes" que sempre preferiram usar de falsas "amnésias", devemos todos, sem excepção, "gritar" sempre bem alto: o nosso país sangrou entre 1961 e 1974 devido à guerra colonial. Temos razão e moral para isso.
E, para que a história continue "ad eternum" sempre pela verdade, duma vez por todas haverá que deixar de tanto enaltecer nos livros escolares, que nos formam para a vida, as batalhas de São Mamede, Aljubarrota ou outras (que me perdoem a D.Teresa e o D.Nuno), em detrimento da guerra colonial.
Os nossos descendentes, ainda tão próximos, irão gostar de conhecer toda a verdade que lhes querem omitir.
Não consigo terminar sem antes ter de admitir que apesar de ser considerado uma "persona non grata" para a maioria do mundo o Sr. Donald Trump, durante a campanha eleitoral para presidente dos E.U., nunca deixou de falar e enaltecer o papel dos "veterans" (ex-militares) da guerra do Vietname e outras.
Oportunismo ou não, como queiram, mas antes isso que nada pois é, infelizmente, o nosso caso neste país que tanto nos sacrificou.
A
guerra do Ultramar, ao longo do tempo em que existiu, transformou
os jovens que, no auge da vida, se confrontaram com situações dolorosas.
Uns ficaram amputados, outros cegos, com doenças graves no organismo,
doentes da mente, outros paraplégicos ou tetraplégicos... sem saber
o que fazer no futuro.
Na altura da guerra, nós os deficientes éramos considerados “inválidos”.
A partir daqui passávamos a ser uma inquietação para as famílias.
Para muitos camaradas nossos, (como já foi dito várias vezes) os hospitais
militares serviram para esconder da sociedade a realidade da guerra,
como se nada de grave tivesse acontecido. Era assim que o governo de
então actuava. Faziam de tudo para esconder da opinião pública todo
o sofrimento que todos nós passávamos naquelas terras longínquas.
Gostaria aqui de introduzir alguns dados da A.D.F.A. para que a juventude
de agora possa fazer uma ideia e ao mesmo tempo uma reflexão sobre
a contabilização dos deficientes de guerra.
Estes são os dados estatísticos daqueles que adquiriram deficiências
permanentes (ANGOLA, MOÇAMBIQUE, GUINÉ) na Guerra Colonial (1961 – 1974):
(clique para ler...)
Falando agora do stress de guerra, pensa-se que o número de ex-combatentes
que foram afectados é muito acima do apontado (560). Todos
estes dados, dizem respeito aos deficientes militares inscritos logo após
o nascimento da A.D.F.A. Ao longo do tempo, muitos outros casos foram
aparecendo aumentando os números. Ao todo (dados não muito
rigorosos), terão sido evacuados das frentes de combate (13 anos de
guerra) 25.000 militares com deficiências diversas.
Estes dados fazem a história pela pior razão. A GUERRA! Eles servem
também para elucidar a juventude de agora a recordação que ela nos
deixou. Não falo aqui dos mortos pois o número já foi divulgado
no blog em textos anteriores.
Espero que este texto tenha esclarecido (embora superficialmente)
alguns alunos das escolas a que tenho ido.
GUIA DE REMESSA
Mercadoria: - (carne)
Estado de conservação: - (fatidicamente fatimiofilizada)
Destino: - (canhão)
Homens fortes partiam
Desfilando em continência
Senhoras de branco sorriam
E muita fé incutiam
Nas mentes escravas que fomos!
…
Toma lá uma esferográfica
uma dúzia de aerogramas
um macinho de tabaco
e uma santinha de Fátima.
– Guarda-a bem no coração!
Havia tanto “humanismo”
Naquelas Sopico pint (adas):
Senhoras das canastradas;
Servas fiéis do fascismo!
(Hoje descubro o cinismo
Do gesto sujo – estudado!)
CAPITÃO CALVINHO
Na ida para Moçambique
Vera Cruz 29-7-1968
Amigo e camarada Silva. Estamos à espera que digas alguma coisa sobre
o nosso aniversário. Parece que este ano vai ser em Junho e vai ser
de arromba! Vamos a isso. O que interessa é que não morra!
Como sempre o faço cá estou de novo a divulgar mais um livro do grande romancista António Brito que, como todos nós, também penou na guerra ultramarina, precisamente em Moçambique.
Especialista em contar histórias sobre o dia a dia dos combatentes, todas baseadas na sua vivência, não poupa na crueza das palavras o que, em meu entender, torna os seus romances autênticas obras primas.
De certeza que ninguém fica indiferente, pois em cada página que lemos somos atirados para personagens do livro. Em tudo, principalmente na pormenorização dos acontecimentos, que nos reaviva a memória e nos enche de gozo.
O livro tem por titulo "Sagal - Um herói feito em África". O nome do "herói" Sagal tem a ver com a localidade em Cabo Delgado pois parte da história é passada naquela zona.
A sua leitura leva-nos duma penada à "nossa guerra". Para os que não se incomodam com isso, recomendo vivamente que leiam a obra.
Aqui fica um pequeno excerto que toca naquele assunto que todos os combatentes, sem excepção (digo eu), se preocupavam em defender o mais possivel. Infelizmente muitos não o conseguiram!
Estes apontamentos do Paulo Antunes, nosso reporter de guerra "in loco", demonstram uma realidade cruel da guerra que vivemos.
Julgo que, sem se aperceber de tamanha crueldade ia escrevendo, no aconchego da caserna, as folhas do caderno que, passados tantos anos, ainda nos fazem pasmar de incredulidade. Essa indiferença permitia-lhe juntar na mesma folha tanto o material de guerra capturado ao IN como os nossos mortos e feridos. Acredito que só a ingenuidade lhe permitia uma mistura algo tétrica dos tais troféus de guerra com os nomes dos companheiros que ficavam sem a própria vida e que, na época, conveniente e orgulhosamente, se dizia: "Em nome da Pátria". Conveniências politicas, podemos lhe chamar.
Não me vou alongar, pois o protagonismo é do companheiro Paulo Antunes com os seus extraordinários apontamentos escritos que ainda hoje perduram nas nossas memórias para, assim, mantermos o direito de continuar a denunciar este hediondo crime de guerra, mais conhecida por "Guerra Ultramarina" que, precocemente, tirou as vidas a muitos milhares de jovens.
Todos que andámos na guerra mantemos ainda bem gravadas na memória um nunca acabar de más e sofridas imagens daquele tempo.
Todos, menos os felizardos que estiveram de férias nas principais cidades e com os cus bem sentados dentro dos QG e outros que tais (ainda hoje me rôo de inveja apesar de isentos de qualquer culpa), foram obrigados a participar em colunas militares aquando das deslocações das suas companhias e batalhões duns locais para outros.
A 2415 não fugiu à regra e o seu histórico indica desde a 1ª viagem (noturna) do Catur para Lione (à chegada) até muitas outras que obrigatóriamente tiveram de se realizar e das quais bem nos lembramos.
Como passageiro de pleno direito nessas colunas (não era aconselhável ficar para trás), ao olhar esta foto veio-me imediatamente ao pensamento algumas delas mas, principalmente, aquela quando íamos a caminho de Tenente Valadim e, após pernoitarmos no aquartelamento de Nova Viseu (hoje Mtlela) em 10Out.69, viemos a sofrer aquela trágica emboscada que vitimou mais um companheiro e mais uns tantos feridos. Lembro-me que ia na ultima viatura sentado bem alto e bem visivel (aqui aplica-se bem aquela: se estupidez pagasse imposto!) no separador metálico que dividia o banco do condutor do banco duplo em madeira do "unimog". Ao ouvir os primeiros dispáros do inimigo dirigidos à "berliet" da frente carregada de colchões com o pessoal deitado em cima, saltei rápidamente e atirei-me (sabe-se lá porquê) a toda a velocidade mato adentro disparando a G-3 em sentido unico. Só me lembro de ouvir o cozinheiro Souza (muito atrás de mim) a gritar: Ó cripto, ó cripto pára aí, pá! És parvo ou quê?!
Tenho ao longo da vida ouvido muitas palavras sábias mas aquelas foram únicas! Já aqui lhe agradeci publicamente mas, sempre que me lembrar deste "susto", não economizarei os agradecimentos. Para ele muita saúde e muitos anos de vida e bem gostaria de lhe dar um abraço.
Este episódio já aqui foi descrito em texto e intitulado "Apocalipse Now" em 14.06.2011 e em vídeo com o nome "A guerra ao vivo" com data de 24.05.2011
Todamaneira esta foto, além de me encher de sentimentalismo (se calhar bacoco devem dizer muitos) aprecio-a na vertente da arte. Vejo-a em movimento permanente de guerras que nunca vão terminar.
Esta foto e as seguintes foram
gentilmente cedidas pela A.D.F.A. de Famalicão. Outras se seguirão!
Espero que haja alguém de
transmissões que dê uma palavrinha sobre estas relíquias! Pois há jovens que
ficam com a curiosidade de saber algo sobre coisas que fizeram parte da
guerra.
Muito curioso este recorte de jornal (?) sobre noticias de Antonio Enes no ano de (?), colocado no simpático blog da "Associação dos Ex-Residentes no Parapato" (António Enes), no qual vou passando os olhos habitualmente e que me confirmou, se é que precisava, que o engano daquela guerra era total. Refiro-me à preocupação do MNF em animar os soldados nas frentes de guerra. Para isso, treinavam outros militares privilegiados em musicos e cantores que, com as lindas e saudosas canções da longinqua metropole como "Mãezinha estás tão longe de mim" do conjunto Muge e "Teus óculos de sol" da Natercia Barreto, intercaladas no meio dos grupos de "Ó malhão, malhão" ou daqueles entusiastas que já nasceram agarrados ao acordeão e que os esgaçavam em todas as notas, iam depois, quais embaixadas do entretenimento, pelo mato adentro com a espinhosa missão de ajudar a elevar a moral dos coitados lá longe desterrados. Até fazia sentido se fosse esse o espirito (digo eu)!
Pensava ser esta (além da distribuição dos aerogramas, esferograficas de má qualidade e, pior ainda, os mata-ratos), a nobre missão do MNF organizado por senhoras tão distintas da área da politica da época e não só.
Mas, verifico agora, que aquela organização (acho que no proximo 10 de Junho o alto dignatário da Nação devia lhe prestar uma homenagem póstuma) andava distraída pois entendeu que a cidade de Antonio Enes era um palco de guerra a 100% e precisada da maior ajuda possivel de distracção e regabofe aos seus militares !
É a unica maneira de entender este equivoco, este engano, em detrimento daqueles que lá mais para o interior, no mato profundo nada tinham que os animasse, a não ser um ou outro companheiro tocador de gaita de beiços ou de viola desafinada.
A noticia diz que o espectaculo decorreu com brilhantismo e que agradou a toda a simpática população da cidade. Ainda bem que assim foi e, com toda a certeza, também deve ter animado os militares lá instalados a 50% (ou menos?). Do mal o menos, só lamento tal paródia não ter tocado à CCav.2415, que me lembre!
O Aerograma era o nosso mensageiro
de guerra, uma espécie de carta com um formato especial, como podem
ver na foto. Era neste formato que nós enviávamos as nossas vivências
do dia-a-dia, principalmente as que nos interessavam, pois a maior
parte de nós não contava o que se passava verdadeiramente no teatro de guerra,
para não alarmar quem o recebia. Nele expressávamos as nossas saudades
e por vezes pequenas histórias para a família, esposas, namoradas,
noivas, madrinhas de guerra e amigos. O Aerograma, não era mais que
o elo de ligação (durante anos) das províncias Ultramarinas à Metrópole.
Podia-se escrever na parte de trás e também nas abas que depois se
colavam entre si. O Aerograma era gentilmente distribuído,
gratuitamente, pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino, e a ligação
e transporte era oferecido pela TAP. Quem era o M. N. F.? Muito resumidamente,
eram umas senhoras muito bem vestidas, que faziam visitas aos hospitais
(raramente ao mato) e que fielmente diziam algumas palavras meigas (tipo
choradinho) e distribuíam, além dos aerogramas, esferográficas, isqueiros,
maços de tabaco e outras bugigangas! Tudo em prol do bem-estar na guerra.
Se é que havia bem-estar! Eu, por mim, e por onde passei, apreciei muito
mais o papel das senhoras da Cruz Vermelha...
Este sou eu num domingo (quando se sabia que era
domingo) em Lione. Geralmente isto acontecia quando o meu pelotão não
estava de serviço.
Estou a escrever hoje para tu ficares a saber o que significa o mato. É simplesmente o drama o que eu passo, mato, lama, sempre lama ou chuva ou pó e ainda tiros e sangue e mortos, é isto o mato. É isto a guerra e é preciso prosseguir, chegar até ao fim, esgotar o cálice do fel e as tormentas. É medo, o medo que nos assalta no negrume da mata tão cerrada que nada se divisa a mais de 2 metros de distância. Para quê dizer que o não temos se é mentira? Eu tenho, sou um homem e tenho medo, no entanto sigo até ao fim não porque me sinta herói mas porque sei que tenho de ir. Afinal que ficava cá a fazer?
Vamos, há fome, é fácil de resolver o problema, tira-se uma bolacha de reserva da ração e come-se, mas não se consegue engolir! É natural, a garganta aperta-se à medida que o tempo passa, e quando há dois dias apenas se comem bolachas é possível que elas não se apresentem como um manjar apetitoso. Água, boa! Talvez no próximo charco se consiga encontrar alguma, suja, nojenta, mesmo assim refresca. O cantil já está seco há muito. Paciência!
Ninguém fala, apenas se ouve o ritmo compassado das botas percorrendo o trilho sinuoso através da selva. Andar sempre em frente, sempre em frente. Alguns perdem-se em sonhos de futuro, quando voltar à terra hei-de fazer isto e aquilo. Ilusões! A maioria porém não pensa em nada, naquela situação também nem interessa, tudo pode perder qualquer significado. Só importa continuar até ao fim.
Há uns que se apoiam nas espingardas como se fossem bordões, sempre ajuda um pouco. Apetece deitar fora toda a tralha que se leva às costas e que constitui um peso infernal para as poucas forças que restam.
No mato quando cai a noite a manta faz sempre jeito e sabe bem o aconchego. Tantas vezes que a nossa cama, civil, nos é lembrada, mas o que nos espera é um pouco de capim!
Barbas crescidas, caras sujas, olhos encovados pelo cansaço. Quando é que esta porcaria terminará?
A marcha prossegue, inexorável. Talvez o trilho não seja este e nunca mais lá chegamos. Não pode ser, é por ele de certeza, mas que certeza se pode ter neste inferno onde tudo é igual e se repete centenas e milhares de vezes!
Vamos, um cigarrito de vez em quando faz bem. Mesmo os que não fumam acabam por pedi-lo ao companheiro mais próximo. E é aproveitar enquanto é dia porque à noite acabam-se as fumadelas para não atrair a nossa presença.
Amanhece, a coluna segue, segue sempre em frente a caminho da desilusão, da morte ou da glória. É isto a guerra, é isto o mato.... lama..... sempre lama.... ou chuva..... ou pó..... ou tiros ..... ou sangue. É isto o mato, especialmente mortos ou feridos. Nossos corações nestas circunstâncias são do tamanho de ovos de pombinha, mas é a pombinha da nossa esperança, da nossa fé, do nosso futuro, ou por vezes, da nossa eternidade.
Lama, sempre lama, ou chuva, ou pó, ou tiros, ou sangue e talvez mortos!..
Despeço-me com votos de felicidades. Adeus, Paulo Antunes.
Destacamento de Luatize-Moçambique - 1969
Paulo A. Antunes
1º Cabo TRMS nº 110648/67- CCav.2415
S.P.M. 4594
(NB - Este texto foi cedido pelo Paulo Antunes, o "sanfoneiro da caserna", tirado do seu "diário", para ser divulgado no blog. Deixou a promessa de mais "memórias" para breve.
Aqui lhe prestamos a nossa homenagem e agradecimento.)
Quem diria que ao fim de 43 anos esta beldade nativa nos iria aparecer na frente, resplandecente em toda a sua exótica beleza. Se duvidas houvesse bastaria olhar o modo como se vestiu para a foto, parecendo mais uma top model duma qualquer coleção Primavera/Verão de Paris. Reparem bem a "capelline" não engana! Acho que a Maria Mutola e colegas foram as "namoradas" de Lione tal como o foram muitas outras espalhadas na imensidão daquela provincia, segundo crónica do Magalhães inserida no blog já há algum tempo e intitulada "Namoradas" neste caso, de António Enes e da Ilha de Moçambique. Foi a "namorada" dos muitos militares que por Lione passaram. E a Briosa, acho eu, não fugiu à regra! Acredito, até, que na imaginação e convicção de alguns foi mais do que isso, entrando nos variados e apeteciveis caminhos das emoções que substituiam as que tinham ficado a 10mil km de ausência. Daí, e em nome de todos os seus admiradores, que devem ser imensos, humildemente lhe prestamos homenagem pelos serviços prestados, comprometendo-nos a jamais esquecê-la! O caminho da guerra estava traçado. Hoje sabemos que era impossivel que não viesse a acontecer,foram demasiados homens, muito jovens procurando, acima de tudo, acelerar ao máximo o andamento dos 24 meses para o eventual regresso enquanto, nos intervalos da guerra, a conversa, tanto para as "Marias Mutolas" como para as outras cidadãs, era sempre a mesma: "Mué... quer fazer máquina?"
Senão estou errado, julgo que a troco de 20 escudos correndo, ainda, o sério risco, se apanhados em flagrante, das queixas do chefe da aldeia ou até dos maridos ofendidos ao nosso Cap. A.Amado, obrigando-o à aplicação das habituais sanções aos prevaricadores dos bons costumes instalados e que constavam do pagamento de alguns escudos ou do mesmo valor traduzido em garrafões de "cabeça de giz" e, segundo me constou, também podia chegar a uma ou outra cabeça de gado.
Após isto, apetece-me dizer, sem rebates de consciência cínicos e balofos, que aquela guerra nos obrigou, em imensos casos bem visiveis, a dar continuidade à miscigenação.
Não há que sentir resquícios de culpas e, por isso, não devemos pedir desculpas nem perdões por termos mantido e desenvolvido aquelas trocas de favores que, ao longo duma década de guerra, todos fomos dando uma mãozinha.
Haverá, concerteza, os habituais críticos de tudo e de nada, pregadores da moral que, nestes casos, dizem: "São coisas nefastas da guerra".
Desta não devemos comungar. Era a guerra, sim senhor, da qual não fomos ouvidos nem achados mas, analizada deste ângulo nos seus multiplos aspectos, era bem diferente, interessante e necessária quanto possivel, tanto para os que compravam como para as que vendiam. Era a "guerra do sexo" e, quando assim é, não há derrotados, quase sempre todos saem vencedores.
Digo eu!
PS - Foto gentilmente cedida pelo Paulo Antunes-1ºCabo Telefonista
Aqui julgo que a guerra já tinha ficado para trás. Deve ser já no sul, muito próximo do regresso.
VAGUEANDO PELA GUERRA
Este texto serve para dar uma ideia aos jovens, que visitam o nosso site, de que havia coisas de bradar aos céus. Sei que hoje muitos, jovens e não só, desconhecem certas situações que se passaram no período da guerra. Sendo assim, é bom que se vá ao baú e se desenterrem algumas delas para que esta geração tome conhecimento. Hoje vou falar superficialmente um pouco sobre os que morriam na guerra, das condições de vida no mato e outros.
Sabiam que os familiares é que tinham de pagar a trasladação dos corpos para o Continente? Pois é a verdade. As famílias eram informadas da morte dos seus familiares e tinham um prazo (de que agora não me lembro) para depositar uma certa quantia que rondava (salvo erro) os 7.000$00 a 12.000$00 (na altura), conforme a província ultramarina em que morriam e o local do Continente onde iriam ser sepultados. Sendo assim, chega-se à conclusão de que o Estado Português só pagava a ida para a guerra, e o regresso daqueles que ficavam vivos! Os mortos tinham que pagar o seu regresso! Quem tinha dinheiro trazia-os para cá, os outros ficavam lá, estando hoje parte das suas sepulturas ao abandono.
Nós estávamos ao serviço de quem? Do Estado. Quem era o responsável por todos nós combatentes e seus familiares? O Estado. Morríamos. Quem era o responsável? Os familiares. Era assim. Hoje as coisas mudaram… São outros tempos! Pena é que este novo Estado Português não se digne transladar os restos mortais dos nossos camaradas que ainda se encontram espalhados por aqueles “cemitérios” completamente ao abandono. Era a última homenagem que podiam dar àqueles que à Pátria tudo deram (até a vida). Trazê-los? É um dever. É uma obrigação.
As difíceis condições de vida que passávamos, chegavam a provocar grande desgaste físico. Tanto em Angola como em Moçambique, e ainda com maior incidência na Guiné, devido ao terreno, já para não falar dos nossos camaradas que participaram no início da guerra.
Destacamento de Matipa
Eu posso testemunhar, pois estive algum tempo num destacamento (Matipa) com 10 homens em que as condições eram deploráveis. Para fazerem uma ideia, nós dormimos dois meses no chão, enfiados em sacos cama! E quanto à higiene e ao comer? Nem é bom falar. Claro que tanto em Angola como no resto de Moçambique e na Guiné, havia condições muito piores que esta.
A preparação de muitos não era nenhuma para o tipo de guerra que encontramos (principalmente os primeiros). O armamento, também não era o ideal, nem para atacar nem para defender (eu andei com uma bazuca às costas, avariada, só para meter medo ao inimigo!). A detecção de minas, muitas vezes (se não sempre) era feita praticamente por meios artesanais inventados por nós (as picas), as transmissões, eram rascas -- um suplício. Os rádios de que dispúnhammos (de uma maneira geral) raramente funcionavam. Na sede da Companhia não havia tanto esse problema, mas no mato é que era o bom e o bonito! E no tempo das chuvas? As dificuldades aumentavam.
Então em Matipa é que era impossível contactar com alguém. Era o isolamento total do resto. Chegávamos a ir para pontos mais altos e nada! Esta foto (parecida com outra já publicada) onde eu estou, foi tirada perto de Massangulo durante uma patrulha, a tentar ligação com Lione.
Quando vou às escolas, os alunos perguntam como eram as nossas casas de banho, como tomávamos banho, onde é que nós comíamos e se era bom. Bem. Em alguns casos as nossas casas de banho era ir ao meio do mato... Quanto à comida nem era boa nem era má, era péssima. Tomar banho? Muitas vezes era um bidon (que serviu ao Gasóleo ou à Gasolina) montado em cavaletes, água lá para dentro e já está! Uma vez um aluno fez-me esta pergunta: se tínhamos água canalizada! Dá para entender.
Pois é. A nossa juventude sabe muito pouco da nossa guerra do ultramar, é bom que todos nós possamos divulgar para eles o que realmente se passou e em que condições.
Falando em métodos artesanais de encontrar minas, não podia passar sem apresentar esta foto que foi tirada pelo nosso camarada do B. Caç.3834 Carlos Vardasca (um abraço). Como se pode ver é bastante original. Segundo diz o nosso camarada, os resultados não foram lá muito bons...
Quando há dias atrás deixei aqui uma opinião sobre o excelente livro "O Anjo Branco" juro, solenemente, que não tinha a noção exata da realidade do horrendo massacre perpetrado pelas tropas portuguesas na localidade de Wiriyamu em Moçambique no ano de 1972. Tinha sim uma vaga ideia, pois ao longo do tempo fui ouvindo, coisa aqui, coisa acolá sobre aquele fatidico acontecimento, mas nada que se compare com a realidade, agora, tão cruamente relatada pelo José Rodrigues dos Santos.
A parte final do livro, talvez por considerá-la o fio condutor, como diz, obrigou-o a relatar toda a verdade pura e dura e, por isso, de modo algum, aqui pode caber a ficção.
Ao escritor e a todos aqueles que se preocupam na denuncia das verdades escondidas, principalmente as que nos fazem doer a alma, temos a obrigação de lhes ficar eternamente agradecidos.
Entendo que são eles os nossos porta-vozes, que nos ajudam a ficar com as consciências menos pesadas, e que acabam fazendo o trabalho dos politicos e mandantes insensiveis que ao longo dos anos vão adiando, por cobardia por conveniência e má fé, a obrigação e o dever do mea-culpa ao povo português que interveio na colonização e na guerra colonial.
Da parte que me toca não vou perdoar nunca essa dívida. Se desejarem troco-a, até, pela esmola dos 92 Euros com que desde 2006, e sem bem saber porquê, o Estado me obsequeia anualmente! Peço desculpa deste aparte, já que estou a tratar dum assunto sério demais, que me envergonha como cidadão e como ex-militar que também penou por aquelas paragens.
Ainda bem que pertenci à chamada "tropa macaca" e sinto-me orgulhoso de ter pautado a minha vida militar como pessoa civilizada, apesar das dificuldades e dos perigos da guerra.
Massacre de Camabela, Angola-15Março1961
Guerrilheiros dos Movimentos de Libertação assassinaram as populações indefesas de colonos brancos apanhados de surpresa enquanto dormiam. Foram chacinadas mais de mil pessoas, entre elas muitas mulheres e crianças, esventradas e mutiladas à catanada.
Este horrendo crime está bem documentado, neste video, pelos próprios intervenientes com tamanha simplicidade que até magoa ao assumirem que deram inicio ao "trabalho" (assassinio, digo eu) às seis horas da manhã.
Para casos destes é usual invocar-se a questão, posteriormente, com a habitual frase feita: "É A GUERRA QUE SE HÁ-DE FAZER?"
Mas como a evasiva não satisfaz, pergunta-se a todos os culpados: "QUEM SAIU VENCEDOR?"
Massacre de Wiriyamu, Moçambique-16Dezembro1972
Tropas portuguesas de "elite" (Comandos) invadiram e chacinaram numa fúria assassina as populações indefesas de Wiriyamu e outras aldeias próximas. Foram mortas e queimadas selváticamente quinhentas pessoas, como sempre muitas mulheres e crianças inocentes.
Do mesmo modo que acima o fiz aqui também faço a mesma pergunta : "QUEM SAIU VENCEDOR?"
A descrição macabra feita pelo escritor José Rodrigues dos Santos (ler estes pequenos extratos do seu livro) é, tão só, a profunda realidade do acontecido. Verdade crua e inatacável, que nos deixa atónitos, perplexos e envergonhados. Foi o que senti e, para me redimir como cidadão português (se é que pode haver perdão), obrigo-me a continuar, dentro do possivel, a denunciar estes factos que sujam a humanidade.
Bem hajam todos aqueles, como o Padre Hastings que fez a denuncia ao mundo, que comungam deste espirito civilizacional. Seria bom que o Tribunal dos Direitos Humanos em Haia tivesse presente que o mundo vai para além das antigas Alemanha nazi e da Yugoslávia e que Portugal e a África são já ali.
Pelo conhecimento adquirido ao longo dos anos, há uma pergunta que tenho vindo a fazer a muitos cidadãos de cá e de lá: "VALEU A PENA TANTA DOR E DESGRAÇA?
As respostas são prontas: "NÃO. A FOME E AS MÁS CONDIÇÕES DE VIDA CONTINUAM A MATAR AS POPULAÇÕES, COMO ANTIGAMENTE. SÓ MUDARAM AS BANDEIRAS!"
Esta foto foi tirada na antiga Lourenço Marques. É um grupo de camaradas que estavam internados no Hospital Militar. As senhoras que se vêem são do M. N. Feminino (... as das esferográficas e dos aerogramas). Foi-nos proporcionada uma visita a esta empresa (se bem me lembro, era de laticínios) em Agosto de 69. Como o nosso site é visto por tanta gente, fico na esperança de alguém se rever aqui e diga: Olá! Claro, o da bolinha sou eu!
A GUERRA, como disse no texto anterior, não acabou. E não acabou porque os casos resultantes dela sucedem-se a cada dia que passa. O que vos conto agora é de uma jovem de 26 anos, com o curso de enfermagem, que largou tudo o que tinha de bom na vida para atender o pai que sofre de Perturbação Pós – Stress Traumático. Depois de a mãe ter deixado o seu pai, de seguida foram os irmãos. Ficou ela sozinha a tomar conta dele. O pai precisa de cuidados médicos e medicamentos, mas não tem nem médico nem medicamentos, pois não tem dinheiro. Segundo sei, os médicos confirmam que ele sofre de doença que contraiu na guerra, mas os médicos militares não aceitam tal facto, dizendo que não tem nada a ver com a guerra em que ele andou nem com o serviço militar. Que comentários fazer? Caros camaradas e amigos. Esta jovem está a passar ao lado da sua mocidade o que a leva a dizer que não é feliz. Os melhores anos da vida dela estão a ser passados ao lado do pai, a fazer aquilo que o Estado Português tinha mais que obrigação de fazer, para que esta jovem pudesse viver a sua vida em paz e com a alegria que a sua juventude merece. Mais inquietante ainda, é que algumas pessoas dizem que ela é filha de um maluco que andou na guerra e que é maluca também. Não tenho palavras para definir estas pessoas. Ajudem-me a encontrá-las! Esta jovem que devia merecer carinho pela sua atitude, pois não desprezou o seu pai, é vista por alguns como sendo doida também. Como diz o meu colega e amigo Bastos, Ela também é vítima da Guerra Colonial. Ainda não foi há muito tempo, que o nosso Presidente da República disse: “A dívida de gratidão e o preito de homenagem para com aqueles que ficaram deficientes ao serviço da nação, impõe prioridade no tratamento que lhes deve ser dispensado”. Quem é que está surdo? Quem é que faz de orelhas moucas? E também já houve alguém do governo que disse: “Os combatentes da guerra do Ultramar e os seus deficientes, são a prioridade das prioridades”. A que conclusão é que chegamos? Haja respeito por todos nós, deficientes ou não deficientes, mas mais respeito por aqueles que sofreram e que hoje transportam essas marcas do seu sofrimento no corpo sendo atormentadas por elas, e por simpatia o seu agregado familiar. E são tantos ainda! Que quem souber de mais casos destes, os divulgue, para que esta geração tome conhecimento, e não fiquem escondidos como parece ser o desejo de alguns. Lamento também aqueles que dizem que os que sofrem da Perturbação Pós – Stress Traumático, são os fracos. Felizmente que os seus filhos não passaram ou não vão passar por aquilo que nós passámos. Que esta jovem consiga ainda passar bons momentos na sua vida e seja feliz. BEM MERECE. Revoltado, eu? Que vos parece?
Que me desculpe o meu camarada e amigo Bastos, mas ao ver esta fotografia uma lágrima rolou pelo meu rosto abaixo. Não se pode ficar indiferente. O Bastos é o que está, na foto, de telemóvel em punho. Andou como nós em Moçambique lá par os lados de Cabo Delgado e Mueda, e é amputado. É meu camarada e grande amigo. Estamos juntos na A.D. F. Armadas (Delegação de Coimbra). Desculpa Bastos, não sei escrever tão bem como tu... mas não faz mal. Para que todos saibam que a guerra não acabou. Este Homem, o Dentinho - nome pelo qual é conhecido - mora nos arredores de Coimbra, e é o exemplo profundo de que a guerra não acabou. Deitado na sua cama, (na posição em que nos mostra esta foto), este camarada nosso está assim há mais de quarenta e dois anos. Do seu corpo só a cabeça mexe. É duro ler estas palavras, mas é a realidade. Tudo à Pátria deu e da Pátria nada recebeu, e como ele há mais. Enquanto tivermos força, que as nossas vozes não se calem que a nossa indignação seja ouvida por aqueles (os nossos governantes) que continuam surdos e calados, que a este homem a quem nada deram de direito não queiram agora, também, tirar-lhe os dias que lhe restam, a ele e a todos os outros nossos camaradas que sofrem na pele as agruras da guerra. Força, camarada Dentinho, tens sabido viver, resististe até aqui, vais resistir até ao fim. Que o ano que acaba de entrar te seja mais favorável e alivie a tua dor. Que este texto sirva para reflexão de todos, principalmente para os mais jovens que tão puco sabem da guerra do Ultramar. Parece que nada aconteceu!