* * * * Sábado, 20 de Maio ==> Convívio anual da "BRIOSA" 2415 em Montemor-o-Velho * * * *

segunda-feira, 30 de abril de 2012

VERGONHA !

Por: F.Santa  





Há pouco tempo, numa sala de espera de um hospital, numa conversa casual com alguns pacientes veio à baila a guerra do ultramar e o que ouvi deixou-me perplexo e revoltado.

Existem três mil e tal camaradas nossos espalhados por cemitérios em: MOÇAMBIQUE, ANGOLA e GUINÉ. Fiquei a saber também, que o custo era de três a oito milhões de euros para transportar as suas ossadas para cá. Pois bem, quanto custou o Aeroporto de Beja? Trinta e três milhões de euros. Sendo assim ainda restavam uns míseros vinte cinco milhões! Devemos ser o único país que tem um aeroporto para aterrarem as “moscas”, pois está às moscas! (Acho que nem moscas deve ter…) A história não fica por aqui. Contaram-me também, que nos locais, desenterravam as ossadas dos nossos camaradas e as vendiam como troféus, e como não bastasse, também para fazer magia negra.
Senhores governantes deste país. Peço em meu nome e de todos os meus camaradas e famílias daqueles que por lá estão enterrados, que tenham vergonha e um pouco mais de sensibilidade pelos restos mortais dos que tudo deram pela Pátria. Não os esqueçam. Façam alguma coisa. Pois ainda podem ir a tempo! Os vivos, esses já há muito tempo que foram desprezados, tanto os inteiros como os partidos, agora o que se passa com aqueles que ficaram esquecidos naqueles cemitérios, que deram a vida pela sua pátria (era o que nos era vendido na altura) e não tiveram a sorte de regressar para junto das suas famílias com a dignidade que mereciam, esta mesma dignidade os governantes deste país não lha quiseram dar.
Que Pátria é esta que não sabe honrar os seus combatentes? Tanto dinheiro é esbanjado neste país (basta ler os jornais e ouvir as notícias) por tudo quanto é lado, e para colmatar esta injustiça, não há?
Estamos todos a desaparecer. A nossa idade vai avançando. Aos poucos vamos desaparecendo pois a morte nos vai levando e depois já não resta nada. A geração muda e vem o esquecimento total, e então sim: Os nossos governantes já podem dormir descansados, pois o passado fica lá atrás!
Eu sei que nos últimos tempos fez-se alguma coisa (não os nossos governantes) e foram trasladadas as ossadas de alguns camaradas graças a algumas entidades deste país, tais como: Liga dos Combatentes, A.D.F.A. e TAP. Desculpem se me esqueço de mais alguma. Mas, não eram estas entidades que deviam ter o dever desta missão. É o Estado português que tem o dever moral e humano de o fazer. Assim sendo, é vergonhoso que assim não seja. Não fomos por nossa vontade, fomos obrigados, desempenhámos o nosso papel com lealdade, e tanto os vivos como os mortos e estropiados, fomos abandonados pela MÃE PÁTRIA! Fomos abandonados tanto antes, como depois do 25 de Abril.
Que linda história temos para contar aos nossos filhos e principalmente aos nossos netos! Será que ficarão orgulhosos?
  
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Do nosso camarada Capitão Calvinho:


OS MORTOS

OS MORTOS VINHAM DE NOITE


Pela noite calada
ao chão da gente ultrajada
aporta o cargueiro da morte
qual abutre farto e forte
vindo das frentes de guerra
vomita despojos em terra!

…Gritavam as aves nocturnas!

Por entre abraços de gruas
E das cordas dos porões
Sobem e descem caixões
Que trazem (nomes de ruas)!

(Uma noiva fazendo serão.
Prepara seu enxoval…)

…Rangem dentes de guindastes!

- Em cada urna há um silêncio
   Que é um grito:
- Pátria!?... Porque me abandonaste?!

E o grito ecoa… ecoa…
Bate na montanha de pedra
De um Cristo-Rei conivente
Paira sobre o tecto de Lisboa

…Uma mãe acorda de olhos molhados:
- Terrível pesadelo!
E o eco mastigado pelo Tejo!
Só a noite foi testemunha!...

(A noite e eu
que pela manhã
no corredor do hospital
sentia passar Bandeiras Nacionais
sem faixas negras de luto.)




Espero por vocês na parada do “SANCHO” no dia 5 de Maio, até lá um grande abraço do SANTA.

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sexta-feira, 27 de abril de 2012

CRUZ VERMELHA

Por: F. Santa

Mais uma vez, para a nossa juventude escolar.
Na guerra do Ultramar, as senhoras da Cruz Vermelha, foram bem visíveis não só para mim, bem como para todos os doentes internados nos hospitais Militares.
Quando fui evacuado do H. Militar de V. Cabral (agora Lichinga) para o H. Militar de Nampula, à chegada, lá estavam elas juntamente com os soldados enfermeiros para nos dar apoio. Depois, quando fui novamente evacuado para o H. Militar de Lourenço Marques, fui novamente recebido por elas no aeroporto, tendo-me acompanhado até ao hospital. Quando cheguei, (lembro-me perfeitamente) apareceu-me uma senhora da C. Vermelha já com alguma idade, muito simpática, que me perguntou qual era o meu estado e se tinha fome. Isto era quase meia noite. Retirou-se, e pouco depois apareceu com uma tijela de sopa bem quentinha o que eu agradeci pois a “larica” era muita! No avião (NORATLAS) não havia hospedeiras!
Depois de ir para a enfermaria, (quartos com duas camas) passado algum tempo lá apareceu ela com outra companheira, com uma bandeja. Era o meu jantar. Que bem me soube!
Este serviço não foi prestado a mim como furriel, foi prestado a todos os outros que foram evacuados comigo, sem distinção e a todos os hospitalizados.
Quantoà  senhora de idade, vim a saber umas horas mais tarde que era a “AVOZINHA”. Era assim que ela era tratada por todos. Mas que avó! Hoje, recordo-a com saudade pois para mim, ela foi como uma avó para os cerca de quatro meses de internamento e também para todos os outros doentes. Todos os dias havia visitas aos quartos com palavras de conforto para todos, valiam mais que quantas esferográficas, isqueiros e até aerogramas. Sentava-se na beira da cama e conversava longos minutos. No fim, o nosso estímulo era outro. Aos fins de semana, na companhia de jovens de sexo feminino que eram voluntárias, elas angariavam comida que restava das grandes festas da alta roda que havia na cidade e que era depois distribuída por nós. Aqueles que não podiam comer derivado aos seus ferimentos, eram elas que lho davam na boca.
Depois, quando fui evacuado para Lisboa, lá estava a avozinha com as outras colegas a fazer-nos companhia até ao barco (fui evacuado de barco) dando-nos coisas para comer no início da viagem. Claro que foi uma despedida com lágrimas nos olhos, pois as lágrimas era a única coisa que tinha-mos naquela altura para lhes oferecer como agradecimento em troca do amor que nos deram e de todos os serviços prestados. Elas foram avós e mães ao mesmo tempo. E sendo assim, este texto serve ao mesmo tempo de um agradecimento e homenagem a todas elas pelo bem que nos fizeram. Bem hajam!
Tudo isto faz parte da história da nossa guerra. Podem ser coisas simples, para alguns até sem importância, mas para quem as viveu tem muito significado. Os jovens de hoje, não pensem que nos hospitais tudo eram rosas. Para muitos, estarem feridos e longe da família eram apossados da solidão, solidão que nos roía por dentro às vezes mais que os ferimentos. Se leram o texto anterior sabem do que falo.






Ainda me lembro deste dia. Ia para o aldeamento do Lione para a festa dos baptizados. O rádio não podia faltar! Era Domingo. Julgo que alguém se lembra disto! Pois o Langa tinha convidado quem estava na altura no aquartelamento.

 
Esperando por vocês na parada do “SANCHO” no dia 5 de Maio, até lá um grande abraço do SANTA.

terça-feira, 24 de abril de 2012

3º Aniversário do nosso Blog

                       CCAV 2415

Companhia de Cavalaria 2415 - Moçambique 1968/1970

Hoje, dia 24 de Abril, faz precisamente 3 anos de existência do nosso Blog.   A história do seu nascimento já é do conhecimento de todos pois já foi aqui contada em aniversários anteriores. Não deixa, todavia, de ser uma "pequena obra" que nos  satisfaz e orgulha pois sabemos que estamos a contribuir para ajudar a manter bem vivas as memórias dum tempo que não deve ser esquecido. O passado não só deve ser assumido como também lembrado, seja ele positivo ou negativo, digo eu.
É minha convicção que  o blog, apesar das dificuldades no seu desenvolvimento diário, vai-se mantendo graças aos habituais companheiros que se esforçam para que assim seja.  Esta nobre  atitude, para além do mais, é uma demonstração de amizade e consideração dedicada a todos quantos fizeram parte da 2415. 
Hoje, passados 3 anos, ele pode oferecer ao mundo 368 textos e 389 comentários, em diferentes áreas,  principalmente a que versa a "nossa guerra" em Moçambique.
Em meu entender há textos extraordinários, alguns sublimes até, lembro, por exemplo, "Namoradas" do M.Magalhães  ou  "O Comboio do Catur" do A.Paulo.  Pena é que outros não os imitem.
Como curiosidade os textos mais visualizados até hoje foram "Em missão de saudade" (todas as versões) : 3174 vezes; "Para que todos saibam": 1939 vezes; e "Toques militares": 1661 vezes. 
Será de enaltecer, também, que este blog, do nosso contentamento, já contabiliza cerca de 45 000 visualizações.
A terminar gostaria de  apresentar a todos que nos visitam, sejam da casa ou de fora, sinceros agradecimentos pelo tempo que nos têm dedicado. E prometemos, enquanto for possivel, continuar a fazer sempre o melhor  que podemos e sabemos.      

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O AEROGRAMA

     Por: F. Santa  
                                 
O Aerograma era o nosso mensageiro de guerra, uma espécie de carta com um formato especial, como podem ver na foto. Era neste formato que nós enviávamos as nossas vivências do dia-a-dia, principalmente as que nos interessavam, pois a maior parte de nós não contava o que se passava verdadeiramente no teatro de guerra, para não alarmar quem o recebia. Nele expressávamos as nossas saudades e por vezes pequenas histórias para a família, esposas, namoradas, noivas, madrinhas de guerra e amigos. O Aerograma, não era mais que o elo de ligação (durante anos) das províncias Ultramarinas  à Metrópole. Podia-se escrever na parte de trás e também nas abas que depois se colavam entre si.
O Aerograma era gentilmente distribuído, gratuitamente, pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino, e a ligação e transporte era oferecido pela TAP.
Quem era o M. N. F.? Muito resumidamente, eram umas senhoras muito bem vestidas, que faziam visitas aos hospitais (raramente ao mato) e que fielmente diziam algumas palavras meigas (tipo choradinho) e distribuíam, além dos aerogramas, esferográficas, isqueiros, maços de tabaco e outras bugigangas! Tudo em prol do bem-estar na guerra. Se é que havia bem-estar! Eu, por mim, e por onde passei, apreciei muito mais o papel das senhoras da Cruz Vermelha...
                        
 
Este sou eu num domingo (quando se sabia que era domingo) em Lione. Geralmente isto acontecia quando o meu pelotão não estava de serviço.
  
                         Do Santa, com um abraço.

 .


quarta-feira, 11 de abril de 2012

ORDEM DE SERVIÇO para 5 de Maio

(Atencão: "clique" duas vezes para ampliar cada página...) 
Por: F. Santa 
                                       

Ordem de trabalhos:

sábado, 7 de abril de 2012

PÁSCOA

Por:  F. Santa
     O ano 2011 já  lá vai. Com mais ou menos dificuldades já estamos em Abril de 2012. O Carnaval também já lá vai e a Páscoa está à porta. O tempo voa e os dias atropelam-se uns aos outros como se os ponteiros do relógio tenham aumentado a sua velocidade. É o tempo caminhando para parte incerta, tirando a certeza à vida. Andamos todos numa vida desenfreada como se percorressemos uma estrada sinuosa e cheia de buracos, e depois? Chegando ao fim da mesma, nada encontramos para o nosso conforto. O homem cada vez é mais frio, porque não faz silêncio no seu interior, toma geralmente um comportamento estranho que nada tem a ver com a paz, esquecendo-se que a paz constrói-se na alegria da pessoa humana. Que fazemos nós? Andamos desgostosos, deixando passar o dia-a-dia, em que mais não fazemos do que ir morrendo sem Esperança. Que isto não aconteça. Que esta Páscoa nos traga mais alento para encararmos o futuro, pois (segundo a minha opinião) não vai ser fácil.
A inteligência tem de ser clarificada pelo amor que é o fundamento da nossa vida. Que os homens que têm em suas mãos os destinos políticos, sociais e económicos da Nação em que nós vivemos, saibam fazer tudo para realização plena dos desejos de todos, sem classes, sem idades, sem diferenças. Que parem todos para pensar!
Desejo a todos os camaradas da C. Cav. 2415 e às suas famílias, bem como aquelas dos que partiram, e ainda a todos os camaradas de guerra e visitantes do nosso site, uma Santa Páscoa com muita saúde, paz e amor. Que as amêndoas da Páscoa nos tirem o amargo que existe em nós e nos adocem mais a vida!
Para todos, uma Santa Páscoa e um grande abraço deste sempre vosso amigo   SANTA.

(Camaradas da 2415, estamos quase a chegar ao dia 5 de Maio, dia do nosso convívio anual. Preparem a vossa vida com tempo para responderem à chamada. Contamos convosco!)