sexta-feira, 27 de abril de 2012

CRUZ VERMELHA

Por: F. Santa

Mais uma vez, para a nossa juventude escolar.
Na guerra do Ultramar, as senhoras da Cruz Vermelha, foram bem visíveis não só para mim, bem como para todos os doentes internados nos hospitais Militares.
Quando fui evacuado do H. Militar de V. Cabral (agora Lichinga) para o H. Militar de Nampula, à chegada, lá estavam elas juntamente com os soldados enfermeiros para nos dar apoio. Depois, quando fui novamente evacuado para o H. Militar de Lourenço Marques, fui novamente recebido por elas no aeroporto, tendo-me acompanhado até ao hospital. Quando cheguei, (lembro-me perfeitamente) apareceu-me uma senhora da C. Vermelha já com alguma idade, muito simpática, que me perguntou qual era o meu estado e se tinha fome. Isto era quase meia noite. Retirou-se, e pouco depois apareceu com uma tijela de sopa bem quentinha o que eu agradeci pois a “larica” era muita! No avião (NORATLAS) não havia hospedeiras!
Depois de ir para a enfermaria, (quartos com duas camas) passado algum tempo lá apareceu ela com outra companheira, com uma bandeja. Era o meu jantar. Que bem me soube!
Este serviço não foi prestado a mim como furriel, foi prestado a todos os outros que foram evacuados comigo, sem distinção e a todos os hospitalizados.
Quantoà  senhora de idade, vim a saber umas horas mais tarde que era a “AVOZINHA”. Era assim que ela era tratada por todos. Mas que avó! Hoje, recordo-a com saudade pois para mim, ela foi como uma avó para os cerca de quatro meses de internamento e também para todos os outros doentes. Todos os dias havia visitas aos quartos com palavras de conforto para todos, valiam mais que quantas esferográficas, isqueiros e até aerogramas. Sentava-se na beira da cama e conversava longos minutos. No fim, o nosso estímulo era outro. Aos fins de semana, na companhia de jovens de sexo feminino que eram voluntárias, elas angariavam comida que restava das grandes festas da alta roda que havia na cidade e que era depois distribuída por nós. Aqueles que não podiam comer derivado aos seus ferimentos, eram elas que lho davam na boca.
Depois, quando fui evacuado para Lisboa, lá estava a avozinha com as outras colegas a fazer-nos companhia até ao barco (fui evacuado de barco) dando-nos coisas para comer no início da viagem. Claro que foi uma despedida com lágrimas nos olhos, pois as lágrimas era a única coisa que tinha-mos naquela altura para lhes oferecer como agradecimento em troca do amor que nos deram e de todos os serviços prestados. Elas foram avós e mães ao mesmo tempo. E sendo assim, este texto serve ao mesmo tempo de um agradecimento e homenagem a todas elas pelo bem que nos fizeram. Bem hajam!
Tudo isto faz parte da história da nossa guerra. Podem ser coisas simples, para alguns até sem importância, mas para quem as viveu tem muito significado. Os jovens de hoje, não pensem que nos hospitais tudo eram rosas. Para muitos, estarem feridos e longe da família eram apossados da solidão, solidão que nos roía por dentro às vezes mais que os ferimentos. Se leram o texto anterior sabem do que falo.






Ainda me lembro deste dia. Ia para o aldeamento do Lione para a festa dos baptizados. O rádio não podia faltar! Era Domingo. Julgo que alguém se lembra disto! Pois o Langa tinha convidado quem estava na altura no aquartelamento.

 
Esperando por vocês na parada do “SANCHO” no dia 5 de Maio, até lá um grande abraço do SANTA.

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