sexta-feira, 16 de março de 2012

"Aerograma enviado por um militar à sua namorada"

                                            Por: Paulo Antunes
Revelação da vida de um soldado no mato                            
"Adorada"
Estou a escrever hoje para tu  ficares a saber o que significa o mato.  É simplesmente o drama o que eu passo,  mato, lama, sempre lama ou chuva ou pó e ainda tiros e sangue e mortos, é isto o mato. É isto a guerra e é preciso prosseguir, chegar até ao  fim, esgotar o cálice do fel e as tormentas.  É medo, o medo que nos assalta no negrume da mata tão cerrada que nada se divisa  a mais de 2 metros de distância.   Para quê dizer que o não temos se é mentira?   Eu tenho, sou um homem  e tenho medo, no entanto sigo até ao fim não porque me sinta herói mas porque sei que tenho de ir.   Afinal que ficava cá a fazer?
Vamos, há fome, é fácil de resolver o problema, tira-se uma bolacha de reserva da ração e come-se, mas não se consegue engolir! É natural, a garganta  aperta-se à medida que o tempo passa, e quando há dois dias apenas se comem bolachas é possível que elas não se apresentem como um manjar apetitoso.  Água, boa! Talvez no próximo charco se consiga encontrar alguma, suja, nojenta, mesmo assim refresca.  O cantil já está seco há muito. Paciência!
Ninguém fala, apenas se ouve o ritmo compassado das botas percorrendo o trilho sinuoso através da selva.   Andar sempre em frente, sempre em frente. Alguns perdem-se em sonhos de futuro, quando voltar à terra hei-de fazer isto e aquilo.  Ilusões! A maioria porém não pensa em nada, naquela situação também nem interessa, tudo pode perder qualquer significado.  Só importa continuar até ao fim.
Há uns que se apoiam nas espingardas como se fossem bordões, sempre ajuda um pouco.  Apetece deitar fora toda a tralha que se leva às costas e que constitui um peso infernal para as poucas forças que restam.
No mato quando cai a noite a manta faz sempre jeito e sabe bem o aconchego. Tantas vezes que a nossa cama, civil, nos é lembrada, mas o que nos espera é um pouco de capim!
Barbas crescidas, caras sujas, olhos encovados pelo cansaço.  Quando é que esta porcaria terminará?
A marcha prossegue, inexorável.  Talvez o trilho não seja este e nunca mais lá chegamos.  Não pode ser, é por ele de certeza, mas que certeza se pode ter neste inferno onde tudo é igual e se repete centenas e milhares de vezes!
Vamos, um cigarrito de vez em quando faz bem.   Mesmo os que não fumam acabam por pedi-lo ao companheiro mais próximo.   E é aproveitar enquanto é dia porque à noite acabam-se as fumadelas para não atrair a nossa presença.
Amanhece, a coluna segue, segue sempre em frente a caminho da desilusão, da morte ou da glória.   É isto a guerra, é isto o mato.... lama..... sempre lama.... ou chuva..... ou pó..... ou tiros ..... ou sangue.    É isto o mato, especialmente mortos ou feridos.  Nossos corações nestas circunstâncias são do tamanho de ovos de pombinha, mas é a pombinha da nossa esperança, da nossa fé, do nosso futuro, ou por vezes, da nossa eternidade.
Lama, sempre lama, ou chuva, ou pó, ou tiros, ou sangue e talvez mortos!..
Despeço-me com votos de felicidades.  Adeus,   Paulo Antunes.
Destacamento de Luatize-Moçambique - 1969
Paulo A. Antunes
1º Cabo TRMS nº 110648/67- CCav.2415
S.P.M. 4594
(NB - Este texto foi cedido pelo Paulo Antunes, o "sanfoneiro da caserna", tirado do seu "diário",   para ser divulgado no blog.    Deixou a  promessa de mais "memórias" para breve.      
Aqui lhe prestamos a nossa homenagem e  agradecimento.)
                                           

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