sexta-feira, 19 de março de 2010

DIVAGANDO

Por: F. Santa    

   Aproveitando estes dias chuvosos, tiro um pouco de tempo para divagar.
Tenho ao longo do tempo falado com outros camaradas de guerra, e as queixas são sempre as mesmas: As dificuldades da vida do dia a dia e a saúde. Todos nós herdamos da guerra tudo o que poderia ser de pior, poucas coisas herdamos que ainda hoje possamos recordar com alegria, e de tudo o que nos aconteceu na guerra não podemos esquecer aquela famosa injecção (dose de cavalo) que levamos no pescoço e que nos deixou marcas para toda a vida. Era a lama e a chuva que o nosso corpo enxugava, era a alimentação e ainda a água que nos fez tanto mal, eram as noites mal dormidas e ainda a angústia que transportava-mos resultante do afastamento da família e o trauma que nos causava a própria guerra.
   Camaradas. A nossa velhice não vai ser fácil, para ela ser um pouco melhor temos que enveredar pelo caminho certo, isto é: Viver cada dia com alegria, boa disposição e pensamentos positivos com uma meta para alcançar que é morrermos velhinhos!!! Nem sequer podemos pensar nas (esmolas) reformas que nos dão ou nos vão dar, essas são para esquecer, pois os nossos governantes, e não só, é que têm direito a elas, nós que fomos defender a Pátria com o nosso sangue, simplesmente somos ignorados. Eu tento viver o dia a dia com as maiores das alegrias e sempre que posso dou o meu passeio e de preferência junto ao mar. A Natureza ajuda-me a ver as coisas com outros olhos. Vejamos: Hoje Domingo. Caminho neste momento através da floresta junto ao mar. Ao meu nariz vem o cheiro dos pinheiros e ao mesmo tempo ouço o cantar dos pássaros, nesta altura vejo passar na minha frente um Esquilo com a sua cauda bem no ar mostrando toda a sua elegância, e lá vai ele desaparecendo pelo meio da floresta, agora só o cantar dos pássaros e o som do mar ao longe, me faziam companhia. A floresta termina dando lugar ás dunas, a brisa do mar e o seu ruído estão cada vez mais perto, venço a subida das dunas e eis que fico a olhar aquela imensidão de água, avancei pela areia e fui ao encontro das ondas, neste momento era eu a praia e o mar. As ondas como querendo brincar comigo vêm uma a uma espraiar a meus pés, as andorinhas do mar com os seus bicos pontiagudos passeiam pela espuma deixada pelas ondas apanhando as pulgas do mar. Agora deitado na areia fixando o céu, vejo passar as gaivotas ao sabor do vento, o seu peito branco como a neve batida pelo sol espelham nos meus olhos. Voltando a olhar o mar penso: Quanta vida lá existe! Mais perto, uma traineira que acaba de regressar da faina, atrás delas as gaivotas vem dançando ao vento, sinal que traz pescado em abundância. Olhando para o horizonte nada mais se avista, é como se fosse o infinito, fixo novamente  o azul do céu, e duas nuvens passam devagar como dois flocos de algodão. A tarde chegava ao fim, o sol já num tom avermelhado e com uma pequena nuvem a servir-lhe de travesseiro preparava-se para se ir deitar, era a noite que estava a chegar, era hora de voltar, olho mais uma vez o céu, a primeira coisa que vejo é o planeta Vénus a que muitos chamam a “Estrela dos Pastores”. A noite continua a deixar cair  seu manto deixando ver aqueles pontinhos luminosos que como por magia se acendem, são as estrelas! Estava agora a chegar ao ponto de onde parti, no meu cérebro as imagens ficaram registadas como se fossem numa máquina digital. Era a natureza em todo o seu esplendor! É isto que nos faz bem, viver a Natureza, é ela que nos dá paz de espírito e seguir em frente. Experimentem!
   Eu sei que tudo isto pode parecer uma burrice da minha parte, mas o que é certo é que eu dou-me bem com esta maneira de ser e alguns amigos meus já experimentaram e deram-se bem, espero não maçar ninguém com as minhas teorias, mas é assim que eu penso.
  Cá fico à espera das vossas respostas para o almoço de convívio e mais textos para o nosso site. 
      Um abraço para todos .
                         Santa                                                                             
                            

4 comentários:

  1. Ora aqui está um momento sério! No meio desta nossa "guerra", também fica bem parar para pensar, reflectir e dizer coisas tão simples para uns ou tão dificeis para outros!
    Amigo Santa, mais uma "à maneira" das tuas habituais! Grande sensibilidade. Parabéns por isso e pela excepcional prosa. Acho que todos, sem excepção, ficamos a dever-te uma!
    Um abraço

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  2. Amigo Santa. Primeiro peço desculpa de não ter uma intervenção mais activa e dar-te o apoio que mereces, mas os problemas familiares obstam a que tal aconteça. Hoje estou aqui, amanhã estou acolá e no dia seguinte estou no lugar pré-definido pelo destino ou pela força das circunstâncias.
    Gostei das tuas palavras "românticas" e do modo como olhas a NATUREZA, pois isso exprime que o teu coração tem bondade e amor para entenderes o próximo. Enquanto tiveres força aguenta firme. Um abraço.

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  3. Parabéns pela exposição e relato que fez... até eu e por empatia consegui senti o mar, a praia... e a sua paz de espírito...acima de tudo serenidade perente a vida... em tom de ironia, até fiquei com inveja...eheheh! Parabéns pela forma como repara e sente as coisas pequenas da vida, pois são elas que nos proporcionam tranquilidade e gosto/sentido de vida. Sem o conhecer, sei que é uma pessoa sensível, afável e emotiva... uma pessoa grandiosa e com muita coisa para partilhar e ensinar. adorei a sua exposição e capacidade de transmitir sentimentos e emoções positivas a todos nós.
    Isabel Pires

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  4. Para já quero agradecer ao Artur, ao Paulo e á Isabel, as palavras com que defeniram o meu texto. Acreditem que eu sou mesmo assim. Gosto de viajar e adoro tudo o que faça parte da natureza. No meio disto tudo, não fico bem quando vejo injustiças com aqueles que defenderam a pátria, e não fico bem quando sei de camaradas nossos que sofrem ainda hoje de todos os traumas de guerra. Talvez por pertencer à Associação dos Deficientes das Forças Armadas e ter contacto com situações que voçês nem imaginam, dá-me esta maneira de encarar a vida. Só com uma força interior muito forte se pode dar um rumo razoável à nossa vida. E ainda da minha parte,não posso esquecer os valores morais que me foram transmitidos pelos meus pais. Isabel, cá fico à espera das fotografias. Um abraço para todos vocês deste companheiro amigo e camarada, Santa.

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