domingo, 20 de setembro de 2009

...VISÕES...

(Ant. Paulo) 
            Tambores, fanfarras, guiões, bandeiras e estandartes
      Fardas em desfile
      Hinos
      Pátria amada. Filhos da Nação
      Discursos moralizantes
      Vassalos e mandatários de governantes
      Donos da guerra e da paz
      Cais de embarque
      Multidões chorantes
      Mães, filhos e esposas delirantes
      Beijos, abraços, gritos, desmaios, angústia, dor, sofrimento
      Mar calmo, mar revolto, mar imenso
      Caminho das Indias
      Viagem com esperança no regresso
      Cabo das Tormentas
      Ventos orientais africanos
      Descarga de gente requisitada e numerada
      Semblantes carregados. Incertezas
      Lione, Chala, Matipa, Vila Cabral, Luatize, Tenente Valadim
      Lugares marcantes
      Picadas, trilhos, caminhos errantes
      Caminhadas imensas, caminhadas intensas
      Selva, embondeiros, capim, feijão macaco
      Bichos selvagens, moscardos, moscas, mosquitos
      Cansaço, desânimo, sede, esgotamentos
      Doenças e acidentes. Paludismo. Desfalecimentos
      Trovoadas, chuvas torrenciais. Rios cheios, rios vazios
      Cacimbo, lama, pó
      Miséria e  fome
      Crianças inocentes, barrigas grandes, umbigos salientes
      Psico
      Cartas, aerogramas e outras missivas
      Madrinhas de guerra, abençoadas divas
       A berliet, o unimog, a cabra do mato
      Viaturas para colunas, colunas sem viaturas
      Espingardas, bazucas, morteiros, granadas, minas
      Metralha, explosões
      Nervos à flor da pele
      Gritos de dor, gritos de raiva
      Sangue
      Aviões e helicópteros
      Urnas de chumbo
      Homens de luto chorando
      Soldado que não volta à sua terra
      Vendilhões de patriotismo que espetam no peito cruzes de guerra
                               …...............
      Pela calada da noite é a fraqueza que vem
      Sinto nos meus olhos as lágrimas de minha mãe

  Ex-fur. Paulo

2 comentários:

  1. Ontem, após aquela gozada viagem no "Comboio do Catur" tão incrivelmente revivida, ainda tentei aqui me sediar para dizer bem alto e de inteira e meritória justiça como este poema, ao mesmo tempo, tão pesado e leve, do companheiro Paulo, me deixou inerte, sem acção, ao ponto de ter dificuldade em articular palavras, frases. Fiquei fechado em mim próprio, só se escapando, sem meu consentimento, umas poucas lágrimas, que a minha mulher ainda teve tempo de enxugar com um abraço.
    Paulo, esta tua "obra de arte" é digna de ser divulgada mais além. É crime se ficar fechada dentro dos muros do nosso blog!!
    E mais não sei dizer!!

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  2. Joao Infante01/03/10, 04:52

    Paulo,..Novo amigo e companheiro d`armas.
    Fiz a viagem no comboio do Catur pela primeira vez em Maio de 1968, e novamente hoje pelas tuas palavras.
    Nao sei qual delas me abalou mais, ou foi mais verdadeira,real, nua e crua.
    Estas de parabens..
    Um abraco amigo.

    Joao Infante.

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